top of page

diga
o
nome
dela

#

Não sou tuas negas

Mulheres Negras e a cor da violência

Por Natielly Silva

& Eduardo Silva

Com certeza você já ouviu a frase “Não sou tuas negas”. Expressão popular (e racista) de indignação, muito utilizada para denunciar alguma forma de desrespeito ou injustiça, remonta ao passado escravagista do Brasil, quando toda forma de violência e abuso à mulher negra era considerada aceitável. Em pouco mais de 130 anos de abolição da escravidão, a persitência dessa expressão no vocabulário de muitos brasileiros demonstra que a posição social dessas mulheres não se alterou.

 

Mas o que é aceitável as “negas” e não ao resto da sociedade? Bem, aparentemente tudo. Se um índice apresenta recorte racial é comum encontrar mulheres negras em pior posição se comparadas a mulheres brancas ou, as vezes, até mesmo a homens negros. As menos alfabetizadas, as mais desempregadas, as mais pobres, as mais violentadas, as mais assassinadas, as mais encarceradas.

 

O encontro do racismo e da misoginia torna meninas negras mais suscetíveis ao preconceito e a violência as forçando a crescer mais cedo sob a lógica da grande “força da mulher negra”. O resultado é a imposição de uma pesada carga emocional  própria e familiar, que aos poucos mina a saúde mental. Não é a toa que elas apresentam mais sinais de depressão que as brancas (52%), ou que, junto aos homens negros, sejam 6 em cada 10 suicídios.

1940 BLACK WOMAN.png

MISOGY

NOIR

O termo Misogynoir foi criado por Moya Bailey - professora e escritora estadunidense - para descrever a forma particular de racismo e misoginia que mulheres negras enfrentam. Usado pela primeira vez em 2008 para dissertação de Moya, o termo viralizou na internet e passou a ser debatido e estudado em diferentes esferas acadêmicas e online.

 

Uma junção das palavras “misoginia” (em inglês misogyny) e “noir” que significa preto em francês, misogynoir descreve perfeitamente sentimentos e comportamentos de ódio, desconfiança, desprezo e preconceito que afetam apenas a mulher negra “É um ataque específico a mulher negra, não a outra mulher racializada, não ao homem negro”, explicou Moya em entrevista ao portal Mashable.

É fácil encontrar exemplos de ataques específicos a mulheres negras na sociedade brasileira. Em 2018 a socióloga e vereadora Marielle Franco foi executada por milicianos no Rio de Janeiro, no ano anterior a menina Maria Eduarda Alves, de apenas 13 anos, foi vítima de bala perdida dentro da escola na Zona Norte do Rio de Janeiro durante ação policial.

 

Raça, gênero e executores, as semelhanças entre o caso Marielle e Maria Eduarda não param por aí. Ambas foram vítimas de fake news nas redes sociais depois de assassinadas. O teor das mentiras é sempre o mesmo: ligação ao tráfico de drogas, não como criminosas, mas como pessoas que circulavam em meio aos criminosos e que se relacionavam com traficantes.

marille-franco-marcinho-vp.jpg

Fake News sobre Marielle Franco no Facebook.

MARIAEDUARDADEFESA.PNG

Prima de Maria Eduarda desmente boatos.

O Estado do Rio de Janeiro foi condenado na justiça pela morte de Maria Eduarda e sentenciado a pagar indenização à família da menina em 2020. Já o caso Marielle segue em aberto. Ainda hoje a vereadora é vítima de ataques, em especial por pessoas ligadas ao presidente Jair Bolsonaro, em julho de 2021 um mural em sua homenagem foi vandalizado com tinta vermelha e palavras de ódio em São Paulo.

 

Muitas vezes a violência contra mulheres negras é tratada como algo trivial. Em junho de 2021 a design de interiores Kathlen Romeu, grávida de 14 semanas, foi morta durante mais uma ação policial na Zona Norte do Rio de Janeiro. A morte de Kathlen e seu bebê causou revolta online e na comunidade onde ela vivia. 

 

Percebendo a repercussão do caso, a marca de roupas FARM resolveu capitalizar a tragédia utilizando o nome da jovem como cupom de desconto. O valor de comissão das vendas seria revertido em doação a família de Kathlen. A ação da marca causou revolta online por lucrar explorando a morte de uma mulher negra, a marca pediu desculpas em seu Instagram:

dsdsdsd.PNG

Reconhecendo

Misogynoir é mais comumente expressado na recepção de mulheres negras na mídia. O ano de 2020 foi celebrado como marco de representatividade negra na televisão brasileira com a vitória da cantora Jojo Todynho no programa A Fazenda (Record), sendo a primeira ganhadora negra, e a vitória da médica Thelma Assis no programa Big Brother Brasil (Globo). 

 

Apesar da importância do papel desempenhado por Jojo e Thelma durante a exibição dos programas, o discurso sobre a participação das duas ao longo das temporadas nem sempre foi positivo. Jojo foi acusada de ser “explosiva” e “violenta” por protagonizar algumas brigas no programa, sendo estereotipada como uma “mulher negra escandalosa”. 

 

Thelma foi condenada pelo contrário. Ignorada em favor do outro participante negro da edição, o ator Babu Santana, Thelma não protagonizou grandes brigas e não levantou formatemente a bandeira racial. A postura da médica foi criticada pela comunidade negra da rede social Twitter que a acusou de “mucama” e “docil”. 

 

Não importa como a mulher negra se comporta, ela é sempre mal interpretada.

 

A injúria racial ainda é comum na mídia brasileira. A cantora Ludmilla foi vítima de racismo e constrangimento em rede nacional duas vezes. Durante a cobertura da RedeTV do carnaval de 2016 a cantora teve o cabelo comparado a “palha de aço” pela apresentadora Val Marchiori

 

Em 2017 foi chamada de “pobre macaca” pelo apresentador Marcão do Povo, que na época trabalhava na Record. Em 2021 a justiça entendeu que Val Marchiori estava “exercendo seu direito de livre expressão” e liberou a apresentadora de pagar indenização a LudmillaO processo que Ludmilla move contra Marcão do Povo desde 2017 segue em segredo de justiça.

Design sem nome (2).png

Jojo Todynho

Thelma Assis

Ludmilla

Violência Urbana

É importante reconhecer que o misogynoir abrange também maiores esferas de violência. Racismo e misoginia nas mídias são apenas reflexos do dia a dia de mulheres negras. Para elas é corriqueiro escutar as expressões “Não sou tuas negas”, “Cabelo ruim”, “Mulata”, “Da cor do pecado”, além disso, mulheres negras são hipersexulizadas e estereotipadas como subalternas ou violentas e perigosas.  

 

Casos como o de Marielle, Maria Eduarda e Kathlen não são únicos, o extermínio da população negra afeta homens e mulheres igualmente. Para chamar atenção a esses crimes campanhas como a “#Sayhername”, ou “#Digaonomedela” em português, e “#Blacklivesmatter”, “#Vidasnegrasimportam” em português, foram criadas.

 

De acordo com o Atlas da Violência 2020, no ano de 2018, 68% das mulheres assassinadas no Brasil eram negras. Análise dos dados colhidos entre 2008 a 2018 mostram que enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras caiu 11,7%, a taxa de homicídios de mulheres negras cresceu 12,4%. 


No mesmo período, a taxa de homicídios de mulheres no Ceará cresceu em 278%. O estudo "A Cor da Violência Policial: a Bala Não Erra o Alvo", mostrou que a taxa de negros mortos pela policia cearense em 2019 chegou a 87,1%. Número elevado para um estados sem negras e negros.

Violência Doméstica

Os índices brasileiros de violência contra a mulher sempre apresentaram números preocupantes, a cada dois minutos uma mulher é agredida. Mas com o isolamento social causado pela pandemia da Covid-19 estes números começaram a refletir o quanto essas mulheres não estão seguras nos próprios lares. O grupo feminino mais afetado são as mulheres negras, que são 17,3% dos desempregados pela pandemia, segundo a pesquisa “Sem parar: a vida das mulheres na pandemia”, e passaram a depender de companheiros agressores.

 

No primeiro semestre de 2020, segundo o Monitor da Violência, sistema criado em parceria entre o portal G1 com o  Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 60% das vítimas de feminicídio e 51% dos casos de lesão corporal no país foram contra mulheres negras. E esses números poderiam ser até maiores, se muitas dessas vítimas não fossem dependentes financeira do agressor, ou não estivesse convivendo mais tempo com eles e pudesse ligar para fazer a denúncia.


Outro problema ainda enfrentado por essas mulheres se trata do fato de que muitos estados ainda não realizam pesquisas e coleta de dados onde trazem um recorte racial, o que dificuldade na elaboração de políticas públicas mais focada nesses grupos. O Ceará, por exemplo, criou apenas esse ano uma unidade para levantamento de informações sobre violência contra a mulheres, trazendo recorte étnico-racial. O Observatório sobre Violência Gênero-Racial foi criado em março e é o primeiro modelo de observatório do país que contempla o fenômeno da violência Gênero Racial.

Observatório da Violência Gênero-Racial

A coordenadora do Observatório, a advogada Raquel Andrade, explica o papel de importância que o poder público tem em buscar subsidiar ações e programas que tragam uma interseccionalidade em sua formação. “Existe uma necessidade de racializar o debate e as políticas públicas em relação a violência contra as mulheres, sobretudo, quando consideramos as mulheres negras que estão como as mais afetadas por crimes de feminicídio e natureza sexual. Então por que não instrumentalizar um equipamento público que direcione a sua atuação para as mulheres negras, indígenas, quilombolas? Afinal, essa necessidade já existe”, disse Andrade.

Com o intuito de ser um aparelho de produção, análise e monitoramento de dados da violência contra a mulher no Ceará, o Observatório ainda pretende elaborar e coordenar projetos de pesquisas que serviram para a criação de políticas públicas de enfrentamento e prevenção contra a violência a mulheres, principalmente, negras e indígenas. O instrumento deve começar oficialmente seus trabalhos em setembro com uma sede fixa no prédio da Procuradoria Especial da Mulher da Assembléia Legislativa.


Raquel é presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB Ceará, e vice-presidente da Comissão da Mulher Advogada, e foi quem pensou na ideia de criação do Observatório, e juntamente com a deputada Augusta Brito, pois em prática o projeto. A advogada, por ser uma mulher negra moradora da periferia de Fortaleza,  vítima de violência durante a infância e adolescência, disse conhecer bem a realidade dos índices de violência contra mulheres negras e sabe da necessidade de políticas de prevenção e enfrentamento que possam resguardar esse grupo.

Como se proteger?

Adriana Spengler, advogada criminalista e professora de Direito Penal e Criminologia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), afirma que a violência doméstica se instala sorrateiramente na relação familiar “O relacionamento abusivo começa com a violência moral, é a primeira forma de violência que a mulher é submetida, são xingamentos e humilhações, a partir disso passa para uma violência psicológica e aí é um passo para violência física e sexual”.

 

A advogada aponta que as vítimas “São mulheres que cresceram presenciando violência doméstica e os agressores também”, o comportamento é aprendido e reproduzido dentro de novos lares, “Eu acompanhei uma audiência em que a vítima levou o sogro como testemunha, ele falou contra o próprio filho que em um devido momento se exaltou e disse ‘Mas pai eu vi o senhor fazer isso com a minha mãe”.

 

Ainda segundo Adriana, o alcoolismo é um dos grandes contribuintes a violência doméstica entre cônjuges e a dependência química em casos de filhos que agridem as próprias mães. Programas policialescos que rotineiramente mostram casos de feminicídio também prestam desserviço ao encorajar o agressor e pôr em dúvida a eficácia da rede pública de combate a violência doméstica.

 

A pandemia de Covid-19 fez com que o número de denúncias de violência doméstica e casos de feminicídios aumentassem em 2020, mas acredita-se que há uma subnotificação de casos. Para Adriana, o principal fator que leva mulheres negras a não denunciar agressões é a vulnerabilidade econômica, para a população no geral - principalmente negras e pardas - a falta de informação sobre a Lei Maria da Penha prende mulheres em relações abusiva.

E a saúde mental, como fica?

Com uma condição de sofrimento intensificado pela pandemia, mulheres negras muitas vezes não possuem um suporte social, coletivo, da família e às vezes até do serviço público para efetuar uma denuncia e se sentir segura com uma rede de apoio, é o que explica a psicóloga Francyelly Félix, especialista em políticas públicas em Saúde Coletiva e profissional do Centro de Referência da Mulher no município de Crato.

 

A agressão física é a última etapa da violência domiciliar, antes da lesão corporal, as vítimas passam por muitas situações de violência verbal e psicológica. O agressor destrói qualquer sentimento de autoestima, independência e amor próprio dentro dessa mulher e usa isso como um recurso para prendê-la há essa relação abusiva. 

 

Esse lugar da mulher negra forte e guerreira que a sociedade impõe a esse grupo acaba tornando essa mulher uma prisioneira nessas relações, pois ela passa a acreditar que precisa ser constantemente uma fortaleza e se largar o companheiro abusivo estará sendo fraca, e se ver na responsabilidade de tentar “consertá-lo”. “Muitas vezes mesmo essa mulher negra sendo chefe do lar ela não consegue terminar com o agressor por acreditar que tem uma responsabilidade de maternagem com esse homem, e ela não consegue romper”, afirma a psicóloga.

 

Para a mulher negra entender e conseguir romper uma relação de violência, não é algo simples e nem acontece de maneira fácil. Francyelly esclarece que durante o acolhimento a vítima, procura buscar nela sua referência em ser mulher. “Quem ela é para além desses papéis maternos ou para além do papel de esposa. Quem ela é? Eu tentava trazer recortes históricos dessas mulheres anteriores à maternidade ou a essa relação abusiva. Referências de momentos onde elas se sentiam altivas”, exemplifica a profissional.

AYABÁS: Mulheres Negras Chefes de Família

- Especial Multimídia & Transmídia

Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC)

Fortaleza - 2021

bottom of page