

Outros Caminhos
Subsídios governamentais são a principal fonte de complemento a renda para famílias negras
Por Natielly Silva
& Eduardo Silva
Há uma enorme disparidade econômica entre famílias negras e brancas. Em 2018 as despesas mensais de famílias brancas ficaram acima da média nacional e chegaram a ser mais que o dobro das despesas de famílias negras. O dado faz parte de pesquisa realizada pelo Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em novembro de 2020.
Sabe-se que, no geral, pessoas negras têm remuneração menor que seus colegas brancos e compõem a maior parcela da população pobre. Dessa forma, famílias negras se veem obrigadas a gastar menos em necessidades primárias como alimentação, habitação e assistência à saúde. Para famílias negras monoparentais e chefiadas por mulheres a situação pode ser ainda mais desproporcional. A opção mais viavel a essas famílias é a inscriação em programas de apoio financeiro governamentais e não governamentais.

MÉDIA DE DESPESAS
Média nacional R$ 1.667,90 em 2018
DESPESAS R$ 2279,19
DESPESAS R$ 1207,11
DESPESAS MENSAIS
Alimentação Per Capita
R$ 269,44
Habitação
R$ 644,31
Assistência à Saúde
R$ 183,94
DESPESAS MENSAIS
Alimentação Per Capita
R$ 181,60
Habitação
R$ 330,72
Assistência à Saúde
R$ 94,99
*Uso de bens e serviços públicos também faz parte do calculo de despesas mensais
Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: Perfil das Despesas no Brasil
Bolsa Família

LOCUÇÃO
Natielly Silva
TEMPO
18 Min
PARTICIPAÇÃO
Vânia Branco, Jucelania da Silva e Valéria Pinheiro
PRODUÇÃO
Eduardo Silva & Natielly Silva
SOM
Elza Soares
EDIÇÃO
Eduardo Silva
Auxílio Emergencial
O avanço da crise sanitária da Covid-19 no ano de 2020 aprofundou ainda mais o abismo que separa famílias negras e brancas. No ano passado, pretos, pardos e indígenas foram as principais vítimas de infecções e óbitos por coronavírus. Paralelamente, a população negra foi a mais afetada pela crescente taxa de desemprego e a inflação da cesta básica.
Levantamento da ONG Instituto Pólis, realizado em São Paulo, demonstrou que a Covid-19 interrompeu 172 vidas negras por 100 mil habitantes, enquanto que entre os brancos esse número é de 115 por 100 mil habitantes. Segundo boletins do Ministério da Saúde, óbitos por Covid-19 são 57% de pessoas negras e 41% de pessoas brancas.
No segundo trimestre de 2020 a taxa de desemprego atingiu 13,5%, entre negros a taxa chegou aos 17,8%, pardos 15,4% e os brancos 10,4%. Outro fator econômico foi o aumento da cesta básica, Fortaleza possui a cesta básica mais cara do nordeste – R$ 541,61 em junho de 2021. No mesmo período do ano passado a cesta custava R$ 464,31.
Para aliviar os prejuízos econômicos da pandemia o governo federal sancionou, no dia 2 de abril de 2020, a Lei Nº 13.982 que estabeleceu a distribuição de auxílio emergencial a trabalhadores informais, autônomos, microempreendedores individuais e desempregados que sofreram com efeitos adversos da Covid-19.
No texto da lei ficaram previstos três pagamentos no valor de R$ 600 aos beneficiados ou o pagamento dobrado no valor de R$ 1,2 mil para mulheres chefes de família. O benefício foi ainda prorrogado para mais duas parcelas em julho e mais tarde quatro parcelas de R$ 300 no mês de setembro.
Contabiliza-se que, até 14 de dezembro de 2020, R$ 284 bilhões foram destinados ao resgate econômico de 67,9 milhões de brasileiros e suas famílias. De acordo com o Ministério da Cidadania, mulheres foram 55% dos beneficiados e a maior parte desses vivem na região norte e nordeste (38%) do país.
A família de Dona Teresa Barbosa*, 66, foi uma das contempladas com o auxílio emergencial. Mulher preta e chefe de família desde os anos ‘80, Dona Teresa trabalhou como doméstica e depois operária em fábrica têxtil para poder criar seus dois filhos – Dandara*, 41, e Francisco*, 36 – sem ajuda de ninguém. Hoje ela divide/revesa a chefia da família com a filha mais velha, que também é mãe solo de dois filhos – Luiz (23) e Chris (17).
No início do ano passado Dandara estava desempregada, o seguro-desemprego já havia acabado e o dinheiro da rescisão foi usado em reformas emergenciais da casa. As únicas fontes de renda da família eram a aposentadoria de Dona Teresa, R$ 850, e o estágio do neto mais velho, R$ 500, “As coisas estavam mais baratas naquela época e os amigos ajudaram, mas não sei como a gente conseguiu”, relata Dona Teresa.
Despesas mensais da família Barbosa
Média negra R$ 1.207,11 em 2018
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Ano de 2020
Alimentação Per Capita
R$ 176
Aguá, Luz & Internet
R$ 150, R$ 200 & R$ 105
Assistência à Saúde
R$ 230
Transporte
R$ 180
Em junho, após o fim do período rígido do primeiro Lockdown em Fortaleza, Dandara foi empregada provisoriamente em um carrinho de lanches, mas a pouca renda ainda era um problema e ela resolveu se inscrever no auxílio emergencial “Eu estava sem carteira assinada, não tinha certeza de ficar empregada e eu estava nos requisitos; trabalho informal, mãe de família, eu teria direito ”, ela explica.
De acordo com Dona Teresa o auxílio emergencial trouxe alívio nas despesas “As coisas começaram a subir muito (de preço) e a cesta básica também, o auxílio ajudou muito nisso”. Com o dinheiro em mãos a família quitou contas atrasadas de água, luz e cartão de crédito. Além disso, fizeram feiras mais fartas e consertaram o computador da residência para acompanhamento de aulas remotas.
Apesar de ser mãe solo, Dandara nunca recebeu o auxílio de R$ 1,2 mil. O motivo não chegou a ser esclarecido pela plataforma do governo federal. Dona Teresa afirma que as dificuldades financeiras do ano passado e o auxílio a ensinaram a administrar melhor as despesas da família “Tem que controlar as compras e gastar menos em cartão”, ela afirma.
Além do auxílio emergencial, a família de Dona Teresa também recebeu ajuda de amigos da igreja na forma de cestas básicas e R$ 40 distribuídos pelo governo do estado aos estudantes de escolas públicas.
*Nomes alterados em respeito a privacidade da família.