
Franciane Santos
Por Natielly Silva
& Eduardo Silva
Uma maranhense quilombola que há mais de 13 anos vive nas terras alencarinas. Essa é uma das descrições da mestra em Sociologia Franciane Santos, 31, ex-empregada doméstica, e hoje integrante ativa de movimentos sociais de mulheres negras no estado, como o Instituto Negra do Ceará (Inegra) e a Rede de Mulheres Negras do Ceará, além de ser pesquisadora do Laboratório de Estudos e Pesquisa em Afrobrasilidade, Gênero e Família (Nuafro).
Em entrevista ao Especial Ayabás, a mestra relata sua história de vida e de militância iniciada ainda cedo na luta quilombola e mais tarde no movimento estudantil, na Nuafro e na Inegra, o que a ajudou na busca de sua identidade preta e no resgate de sua ancestralidade, abrindo seus olhos e removendo os cadeados do silenciamento, fazendo assim a ativista enxergar sua potencialidade e a positivar sua negritude.
Franciane, onde se iniciou sua história com ativismo e movimentos sociais?
Eu venho de muita luta e também de uma extrema pobreza. Houve uma época em que a gente passava muita fome. A terra não estava mais suprindo os alimentos para todo mundo, dependíamos da colheita, do riacho, das frutas que a gente tinha ganhado da mãe natureza.
Também tinha guerras por terra, porque não tinha ainda regularização. Na época do governo Sarney, eles estavam vendendo as terras quilombolas a preço de banana, com a gente dentro, sem levar em consideração que ali era ocupado por pessoas que dependiam da terra para plantio. A titularização com o governo Lula, tornou possível a gente ter oficialmente um documento que diga que aquela terra não podia ser tirada da gente, e não ser vendida.
Lembro que na época, estava acontecendo vários movimentos em todas as comunidades quilombolas, onde eles iam marchando para as cidades até onde ficava o prefeito, à pé e debaixo de sol. Eu lembro muito disso porque minha mãe me levava para essas marchas. Isso foi crescendo na minha cabeça para eu ter me tornado militante. Então já veio de dentro de casa, lutar pelos seus direitos.
Nessa situação de dificuldades no Quilombo, quais alternativas vocês tomaram?
Nessa situação, muitas pessoas passando fome, como uma maneira para escapar disso, tivemos que migrar. Ir para outras cidades. Para trabalhar nas ditas “casas de famílias”.
Foi assim que aconteceu comigo, com minhas outras irmãs e com muitas pessoas de lá. Eu e minha irmã mais velha, saímos de casa com doze anos para trabalhar em casa de família na cidade.
E também pelo motivo de que não tinha continuação dos estudos lá no quilombo, só havia até a quarta-série na época. Desde os 9 anos que trabalhávamos lá em casa para ajudar nossos pais. Minha mãe era quebradeira de coco e meu pai pescador.
Como você e seus irmãos conciliaram entrar na força de trabalho e continuar os estudos na escola?
Minha mãe tinha o sonho de ser professora, mas não pode, então ela sempre dizia pra gente nunca deixar de estudar. Então a gente trabalhava durante o dia e estudava a noite, sempre fomos alunas de turmas noturnas do ensino público.
Estudar naquela época era muito difícil, porque a gente passava o dia trabalhando, fazendo esforço, colocando energia e então chegávamos na escola muito cansados. E não éramos os únicos. As outras pessoas que estavam ali também trabalhavam durante o dia.
Era um povo onde todo mundo se reconhecia, não só na cor - pois sua maioria eram pessoas pretas - mas também na questão da extrema pobreza, de ter que trabalhar cedo pra ter que sustentar, ajudar sua família.
E aí desde cedo você vai aprendendo a fazer tudo isso. Dentro de uma lógica de que a mulher sempre trabalhou e se sustentou. Essa falácia de que a fragilidade é feminina, ela nunca chegou para a mulher preta.
É a gente que provém nosso sustento, se quisesse comer tinha que fazer uma roça, ou se quisesse levantar uma casa tinha que ir atrás de carregar água. Enfim, lá no quilombo nós não éramos vistas como frágeis, logo fazíamos esse trabalho braçal, que tinha que fazer. Talvez se fossem mulheres brancas fossem vistas como “frageizinhas”.
E dentro desse raciocínio patriarcal, racista e sexista, muitas mulheres também adoecem. E muitas mulheres são provedoras do lar. Eu me orgulho muito de minha família ser matriarcal, de mulheres que conseguiram sobretudo sustentar sua família sozinha. Minha vó, e minha mãe também, porque meu pai não sentia tanto essa questão da responsabilidade com os filhos. Se um filho estava precisando de uma roupa e um remédio, minha mãe que lutasse para conseguir.
Como foi o processo de deixar sua família e trabalhar fazendo serviço doméstico em outro estado?
Quando eu vim para cá, eu ainda era menor de idade e trabalhava como empregada doméstica, sempre trabalhei como empregada doméstica. E aí era muito complicado porque eu não tinha nenhum familiar na cidade. Eu vim com uma patroa, porque na época elas tinham o costume de pegar as meninas dos quilombos e levá-las com o discurso de que ia cuidar, dar comida, dar roupa, como se fosse um favor.
Só que nisso você trabalhava para elas dia e noite, de domingo a domingo. Dentro disso tudo a gente vai aprendendo na prática a sobreviver, se tornar mulher antes do tempo, e também ter esperteza da vida, porque muitos se alimentam de nossa ingenuidade. E então a falta de conhecimento, sobretudo das leis, acabam beneficiando a maioria dessas pessoas.
E como era trabalhar tão jovem como empregada doméstica? Você conseguia conciliar os estudos?
Eu sempre fui muito curiosa, de querer saber das coisas, muito inteligente, sempre gostei de ler, fui uma boa aluna mesmo precisando conciliar trabalho e estudos. No início eu tive que me submeter a muitas humilhações.
Terminei cedo meu ensino médio, mas eu nunca tentei o vestibular porque a minha ex-patroa dizia que eu não era capaz, que eu não ia passar e isso ia fazendo com que eu não acreditasse em mim.
Meu sonho era estudar na UFC. As filhas da minha ex-patroa, as netas dela, estudavam em universidade. Não era justo, porque elas passavam o dia todo estudando e não faziam nada. Eu só estudava duas horas por noite, isso quando a fome não era maior ou o sono, porque o sono era muito grande por causa do trabalho, e então eu dormia em qualquer canto que encostava.
E eu acabava pensando, “como eu vou competir com pessoas assim? Eu não tenho chance”. Não tentei (o vestibular). Só que eu fazia o Enem no ensino médio, e tirei nota boa. Então um professor me perguntou porque eu não tentava o Sisu.
E aí acabei indo para uma faculdade privada com bolsa. Nessa faculdade eles davam bolsa para quem era baixa renda, mas apenas de 30%. Eu não sei como eu conseguia pagar porque eu ganhava uma miséria e ainda ajudava meus pais. Tudo bem complicado, eu quase que desisti diversas vezes, mas eu me negava a permanecer naquela vida como empregada doméstica,
Quando entro no movimento estudantil da faculdade, e aí minha cabeça se expandiu em termo de conhecimentos, de saber também que eu não estava só. A partir desses acontecimentos, eu comecei a abrir meus olhos, eu já era curiosa, só piorou - como ela dizia - meu atrevimento.
Eu passei a questionar, porque eu não tinha férias, porque trabalhava de domingo a domingo. Isso incomodou muito ela, porque meu acesso ao conhecimento estava fazendo eu questionar a forma que ela me tratava. Não tinha direito de ter uma vida sociável. Até isso eles questionavam, como se eu fosse um produto deles.
E tudo isso eu fui quebrando… De enfrentar ela, coisas que as outras que passaram não tiveram essa oportunidade, nem mesmo de estudar. Eu estudei, entrei na faculdade. Muitas das meninas que passaram por lá diziam para mim que eu era muito atrevida, e que eu não reconhecia o meu lugar. “Mas esse aqui não é o meu lugar”
Isso é ensinado a gente a ser assim, a não questionar. E a partir do momento que você não baixa mais a cabeça, aí muda dentro dessa estrutura racista, patriarcal e escravagista. Porque essa lógica de ter uma pessoa para escravizar, por mais que você pague uma miséria, não paga nem um salário decente, não dá uma alimentação adequada, está cimentada na cabeça dessa branquitude. Eles não conseguem fazer sozinhos as tarefas de casa, eles dependem o tempo todo de alguém para cuidar da casa, cozinhar, cuidar dos seus filhos, até mesmo do próprio cachorro.
Na época da minha graduação eu fui expulsa da casa da minha patroa, porque ela dizia que eu não trabalhava. Na época eu estudava à noite e de dia e trabalhava. Mas ela dizia que eu não trabalhava.
Como foi seu primeiro contato com o movimento estudantil na faculdade?
Assim que entrei na faculdade, nossa primeira aula foi com o Movimento Estudantil da faculdade que recebeu a gente e teve um seminário, então aquilo tudo me encantou porque era tudo o que eu queria também, que eu gostava. Me lembrou de quando estava no movimento com a minha família, não diretamente como estou hoje, mas as manifestações que eu sempre estava com eles.
A partir do momento que você começa a falar, a tirar esses cadeados da boca, e o movimento me fez quebrar essas algemas, porque eu era muito calada, fui ensinada a aguentar as coisas quietas, de não falar, não questionar. E então você passa a entender o que essa galera toda da sociologia estava querendo dizer e a vida vai ficando mais complicada pois tudo você quer questionar, que você não concorda, porque isso não tá certo.
Como você conheceu e passou a fazer parte de grupos de mulheres negras como o Inegra e o Nuafro?
A Inegra eu conheci através do Nuafro. No meu curso não era muito discutido a questão racial. Então eu vim ter esse conhecimento racial com as meninas do Inegra, que eram sua maioria formadas, mestras no movimento negro. Elas ficavam me explicando quem era Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, e ficavam me indicando essas autoras. Então além das leituras da faculdade, tinham essas outras complementares, quem eram sugeridas pelo movimento negro.
Eu já estava no meu segundo ano da faculdade, e na ocasião, nós convidamos a professora Zelma para fazer uma fala no Seminário sobre essas questões de negritude.
E em sua fala a professora Zelma me tocou profundamente, e mesmo quando eu vi ela, uma mulher preta, naquele espaço, sendo professora, eu pensei, “meu Deus! Se ela chegou aí, eu posso chegar também”. Ela sempre foi essa referência de mulher negra na minha vida. E enquanto ela falava, eu só conseguia pensar que ela estava falando de mim.
As nossas narrativas são muito parecidas com outras narrativas de outras mulheres pretas. Não somente sobre as nossas dororidades mas sobre as nossas experiências e também essas formas de resistência, são sempre parecidas e comuns. Quando você está numa roda de mulheres pretas, você vai se identificar muito com essas histórias, e isso também tem um nome, se chama racismo estrutural.
Eu dizia muito para a professora Zelma que meu sonho era entrar no Nuafro, só que eu somente poderia entrar no Nuafro se fosse estudante da Uece, e eu nunca consegui. Aí ela me contou que eu poderia ir para as reuniões como ouvinte. E foi aí que comecei a frequentar o grupo de estudos, e aí acabei me tornando pesquisadora voluntária.
E como se deu sua inserção no Mestrado, após uma graduação muito enriquecedora, mas que como foi citado por você foi cheia de obstáculos e dificuldades?
Em 2018 quando já estava formada e não trabalhava mais como trabalhadora doméstica, estava sendo diarista, entre as diárias eu estudava para o Mestrado, estava iniciando meus estudos para tentar entrar na pós-graduação.
A gente, enquanto pobre, não tem acesso a certas leituras, então como vamos saber desses autores. A gente além de não ter livro, não tem tempo para ler porque a gente trabalha.
Como eu era muito atrevida, comecei a frequentar algumas aulas da UFC como ouvinte. Essa disciplina que eu passei a ir, era de Raça e Racismo, e era ministrada por uma professora branca.
No início eu ficava nas aulas mais quieta, no canto, apenas ouvindo. Até que chegou um momento que vi a necessidade de falar, porque eles estavam falando sobre nós, sobretudo povos pretos, que eram os objetos de estudos deles, sua maioria brancos, e aquilo me incomodava a forma como eles nos tratavam.
Foi aí que comecei a falar, e todo mundo ficou impressionado quando eu mostrei minha voz. Eu era bem atrevida, via aqueles professores falando da gente daquela forma, e eu falava, “olha, não é bem assim. Essa parte teórica você até pode saber mas na parte da vivência somos nós que sabemos de cor”. A gente tem nosso lugar de falar, de dizer como gostaríamos de ser tratados, e não dessa forma romantizada.
E como é para você trabalhar em um movimento que lida com um público em situação tão delicada como é o caso das mulheres encarceradas ou em medida cautelar na Inegra? Me conta dos projetos desenvolvidos?
A Inegra me traz esse sentimento de lutar pelas pessoas que são desprovidas financeiramente, pessoas necessitadas, e sobretudo pessoas encarceradas e cumprindo medida cautelar. O meu sonho era ser assistente social, para trabalhar com os direitos, e intervir assim na realidade.
A Inegra, ela vem nesse impulso de fazer você acreditar que a sua militância ela não só te impulsiona, mas ela também pode incidir na vida de outras pessoas. E era muito isso, de você realizar uma atividade com muitas mulheres dentro de uma cela, sem algemas, interagindo. Você tratar elas como pessoas. Esse trabalho humanizado com outro olhar, com outra perspectiva, com outra metodologia, com outra pedagogia. E isso me incentivou a estar hoje na Frente Estadual pelo Desencarceramento.
Franciane, ainda persiste o mito de que não existem pessoas negras no Ceará. Muitas pessoas que adentram nos Movimentos Negros estão passando pelo processo de descobrir sua negritude. Então, qual a importância dessas pessoas adentrarem esses espaços?
Tudo vem através do conhecimento. A partir do momento que você tem o acesso a essa literatura da escrita de pessoas pretas para pessoas pretas, não tem como você não conseguir ter essa identificação. Essa identidade racial, esse reconhecimento é muito doloroso. Foi o que aconteceu comigo. Por mais que eu desconfiasse que era preta, mas eu reafirmar foi sobretudo ouvir outras mulheres pretas falando suas experiências. E você se ver, se reconhecer, e dizer, “isso também acontece comigo”. E admitir que eu preciso saber a minha história. Por que eu não gosto do meu nariz? Por que eu não gosto da minha boca? Por que eu não gosto do meu cabelo? Por que eu sou impedida de entrar dentro de uma loja de shopping? Por que eu sou revistada? Quando a gente tá dentro do ônibus e a polícia entra, quem é que leva um baculejo? Você vai em algum momento acabar se reconhecendo da pior forma possível.
Você participa da Rede de Mulheres Negras do Ceará desde muito cedo na história do grupo, como se iniciou essa história?
Foi a Inegra que me chamou para participar de um Encontro Nacional de Mulheres Negras em 2018 junto com outras mulheres pretas aqui do estado. A gente construiu essa Rede de Mulheres para arrecadar dinheiro para irmos para Goiânia, onde seria o evento.
Após esse encontro em Goiânia, nós minorias já sofríamos com ações do atual governo, então resolvemos permanecer unidas, já vislumbrávamos ações de resistência, além de dialogarmos estratégias de sobrevivência.
A gente começou a dialogar com outras mulheres da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco. Elas já tinham essa caminhada bem mais longa dentro do movimento, e a gente queria saber como era que se fazia uma Rede de Mulheres Negras no Ceará.
Tendo em vista também essa discussão de que no Ceará não existem pessoas negras, e para a gente reafirmar essa negritude aqui no estado. Fomos dialogando com essas mais velhas que tinham conhecimento, e essa experiência de modo que fomos tramando como a gente ia se organizar.
Chegou determinado momento que começamos a pensar em ações que tivessem uma intervenção mais forte, sobretudo com mulheres que estão em situação de vulnerabilidade social.
Hoje a gente está desenvolvendo este projeto de distribuição de cestas básicas porque agora na pandemia foi bem complicado, muita gente perdeu o emprego, muita gente passando fome. E a gente tem desenvolvido às sextas pretas, seminários virtuais agora na pandemia e pretendemos executar mais ações posteriormente de atendimento psicológico para mulheres também que estão passando por processo de adoecimento mental.
Na Rede temos pessoas de todos os movimentos, ou não, ou de mulheres não organizadas. Nós somos diversas. E é uma rede de mulheres negras independentemente. É uma rede que se solidariza com mulheres negras. E a sua dor é a nossa dor, a sua causa, é a nossa causa. Dentro dessa lógica de irmandade, de saber que nós mulheres pretas podemos tecer uma outra possibilidade de existência.
Sobre seus trabalhos na Rede de Mulheres Negras do Ceará e na Inegra. Quais transformações esses grupos operam na vida das pessoas?
O público da Inegra é um público de pessoas encarceradas. Ela trabalha com pessoas que passam por diversos preconceitos. Não só o racial, mas também por já ter passado pelo sistema prisional. E são essas pessoas que estão no que chamamos de “não lugar”. A gente tenta possibilitar uma forma mínima de dignidade e uma dessas formas é pelo conhecimento de saber onde você tem que ir atrás dos seus direitos, de ver processos, que era essa uma fraternidade. A gente entrava, tinha esse trabalho humanizado, horizontal, de você conversar de igual para igual, por mais que você saiba que elas estavam na condição de presa e a gente não, mas somos todas mulheres pretas, e elas se reconhecem na gente. Sobre essa questão da conscientização, principalmente racial, porque algumas ali mesmo sendo de pele retinta, não se identificava como mulher preta. São tantas questões, e tantas vidas negras tocadas.
O movimento negro cresceu muito na ultimá década, tocando pessoas negras de locais, idades e vivências diversas. Como auxiliar pessoas negras no processo de descobrimento da negritude?
O acolhimento precisa vir inicialmente. Você precisa receber essa pessoa. Dizer para ela que tudo é possível de mudança. Que nada é estático. Um dos princípios, sobretudo, a partir do momento que você se reconhece enquanto pessoa negra, é o respeito às nossas negritudes e nós não somos obrigados a ser tudo da mesma forma. Até porque isso tira a nossa humanidade, que é isso que a sociedade racista faz, ela tira nossa humanidade. Que a gente tem que ser perfeito. E também respeitar os mais velhos, que veio antes de você e do bem viver, principalmente, da nossa liberdade, que ainda é uma luta constante.
Qual sua experiencia com descriminação racial no Ceará?
A minha mãe tem a pele mais retinta que a minha, e tinha casa que eu trabalhava que ela não podia entrar, porque a minha patroa dizia que ela ia roubar. Sendo que a minha mãe é a pessoa mais honesta dessa vida. Eles não veem que ali é um ser humano, que tem experiência, que tem sonhos, que tem saberes.
Eu sou mestra, mas se a pessoa me vê na rua acha que sou empregada doméstica. Isso não é à toa, isso é um sistema que opera cotidianamente, o racismo cotidiano. E dentro dessa lógica da casa grande, senzala, que nunca saiu da mente das pessoas. É muito colonialista essas relações.
Aqui no Ceará existe esse apagamento da negritude. “Ah! Se não há negro, então não existe racismo”. E aí eu percebo muito quando eu vou para alguns espaços onde as pessoas pensam logo que eu sou do Maranhão ou da Bahia. Eu sou maranhense, mas por saber dessa questão, da identidade no Ceará e desse apagamento eu respondo, “não, eu sou cearense. Você sabia que no Ceará também existem pessoas negras?”.
E aqui no Ceará a gente tem que levar em consideração as negritudes de cada território. Porque as negritudes são plural, e não singular, porque elas são diversas. Então as negritudes do Ceará, do Maranhão, da Bahia, por exemplo, são muito diferenciadas.
E nunca deve ser considerada ou ser analisada assim de uma ótica colonialista, porque em cada determinado espaço, essa violência da colonização, ela se deu de uma forma diferencial. E não é porque aqui tem negros de pele clara que eles não sejam tão negros quanto, por exemplo, os maranhenses que tem pele retinta em sua maioria. Quem é negro, não vai deixar de sofrer racismo.
Como mulher negra quilombola, qual sua relação com sua ancestralidade e as matriarcas da sua família?
A minha ancestralidade, ela tem sido todo o motor da minha sobrevivência. Eu sou bisneta de macumbeira, de uma mulher muito sábia, poderosa, rezadeira, benzedeira, que tinha um saber intraduzível, sobretudo acerca da natureza.
Na época de colheita, ela era a pessoa referência a ser consultada. Se um menino estava com quebranto, era ela que ia rezar, se eu não estava bem, era ela que me dava um banho de descarrego.
A gente especialmente que é quilombola, depende da natureza, e quem tem essas raízes ancestrais é impossível a gente não saber que chá a gente deve tomar e não reconhecer as ervas. O que é um capim santo, o que é uma erva-cidreira, o que é um boldo. Enfim, tudo isso a gente aprendeu cedinho com ela, porque ela sempre foi de explicar quais ervas eram para tomar, quais eram prejudiciais.
E aí, por exemplo, a minha mãe, ela é muito católica, mas a prática dela é muito de mulher de terreiro, das religiões de matrizes africanas. Os altares que ela faz. A gente vê uma referência quando começa a aprender.
Ela leva essa questão afro da nossa cultura pra dentro da igreja, que é algo revolucionário, porque há essa vértebra da nossa cultura do bate tambor. Tudo isso é de religiões e da cultura africana e a minha mãe não percebe que está dentro dela. Porque é de onde ela veio, né? Mas, devido esse preconceito, a intolerância, o racismo religioso, que vai muito forte, e sataniza essas práticas, dizem que é diabólico, mas na hora que o menino que tá um quebrando, é a elas que eles correm.
Hoje eu sou uma pessoa considerada sem religião, porque a partir do momento que eu comecei a estudar, a ter os conhecimentos sobre o que a igreja católica fez, eu já questionava algumas coisas que eu não concordava, e quando eu questionava ninguém me dava resposta. Eu comecei a me aproximar mais, a querer saber e contar as minhas origens, por exemplo, hoje, eu sei fazer um escalda-pés, eu sei fazer um cozimento, eu sei fazer um banho de descarrego, eu sei fazer uns travesseirinhos de erva, incensos naturais de erva.
Hoje eu não nego mais a minha ancestralidade, a minha avó tinha muito isso. De conversar sobre isso. Então, eu me criei tomando voz, é ela me ensinando tudo. É um momento assim que eu me reconecto não só fazer as minhas origens, mas com a minha bisavó. Pra mim, ela é a minha professora, que me guia, e que sempre esteve comigo. Ela sempre dizia que ia estar comigo a qualquer momento. Então, eu acredito muito nessa força ancestral. E que me nutre. É nesses tempos tão difíceis, né, distantes da nossa família, são esses saberes, essa força, que tem me nutrido.