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Lorrayne
Santos

Por Natielly Silva

& Eduardo Silva

Em 1987 a acadêmica afro-americana Cleonora Hudson-Weems propôs a todas as mulheres descendentes da diáspora africana uma nova forma de enxergar suas vivências a partir de um pensamento matriarcal afrocentrado, a teoria do Mulherismo Africana. Segundo esta perspectiva, mulheres negras devem voltar seu olhar a si próprias e ao continente africano para encarar suas realidades tanto nas ações do dia a dia quanto em suas ideias.

 

Para entender o que trata o Mulherismo Africana e as experiências de quem segue esse pensamento o Especial Ayabás convidou Lorrayne Santos, 32, mestranda em sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) - “da 1° Turma de ações afirmativas para pessoas negras” ela destaca, para um diálogo sobre sua história com o Mulherismo

Lorrayne, como foi o seu primeiro contato com o Mulherismo Africana?

Eu descobri o Mulherismo Africana através de um homem africano, ele me indicou um perfil no Facebook, pra eu poder seguir, que na época era, eu não lembro agora o nome dela antes dela mudar para um nome africano, mas hoje a conhecemos como Anin Urasse. Ela é uma das grandes referências do mulherismo africana aqui no Brasil, pelo menos pra mim. Depois que eu conheci a Aza Njeri, a Katúscia Ribeiro, mas pra mim chegou primeiro através da Anin Urasse. E aí eu comecei a seguir ela no Facebook, fui vendo alguns textos que ela escrevia e, na verdade, no primeiro contato, eu não gostei do que o mulherismo africana abordava porque eu tive uma leitura muito superficial naquele momento, e como eu tava muito inserida ainda dentro do movimento feminista, o grupo que eu tava era misto, de mulheres negras e brancas. Eu nunca fiz parte de grupos auto-organizados de mulheres negras. Aí, eu em um primeiro momento eu rejeitei um pouco a teoria mulherista. 

 

Uma teoria que foi criada por uma afro-americana, e acabei rejeitando naquele primeiro momento, mas quando eu me afastei dos movimentos de esquerda - eu fiz parte de alguns movimentos, de um partido também - aí quando eu me afastei, quando eu vi de fora, comecei a fazer algumas críticas, algumas autocríticas ao meu posicionamento no mundo, a forma de me enxergar no mundo. Então quando comecei a me entender como pessoa preta, eu fui buscar retomar o contato com o mulherismo africana, fui ler mais, não tenho uma leitura muito aprofundada sobre o que é o mulherismo africana, mas o que tenho de leitura, é o que mais me identifico, e o que eu mais consigo me expressar melhor enquanto mulher negra. 

 

Quando eu era militante feminista, aprendi que o patriarcado era universal, que acontecia de forma universal no mundo inteiro, e não é. A partir das leituras do mulherismo africana, eu fui me dando conta que não. E aí, eu fui entrando mais em contato ainda com a Anin Urasse, principalmente agora no instagram, já que o facebook não é mais uma rede social que eu utilizo. Então eu comecei a ler mais, comecei a ler o blog dela. Depois que entrei em contato com essas outras mulheres, que é a Aza Njeri e a Katúscia Ribeiro. E então fui tentando me aprofundar mais, mas não é uma coisa que estudo bastante, e sim uma coisa que, na prática,  apesar de não estar organizada com mulheristas africanas, aqui em Fortaleza, ou em outras partes, eu não estou auto-organizada, mas é uma teoria que eu sinto que mais me acolhe enquanto mulher negra.

O que é que você sente, que dentro da teoria, te representa, que te traz esse senso de pertencimento ao mulherismo?

Eu acredito que a principal coisa é sobre a questão de se enxergar enquanto povo. E o mulherismo africana, como ele vai dizer que o patriarcado não é universal, e que nós temos experiências até hoje, no continente africano de matriarcado, de experiências matrifocais, onde mulheres estão no centro das decisões, inclusive, políticas, enfim, a mulher é uma pessoa importante. Importante para a comunidade e não só para as outras mulheres.

 

Eu fiz parte do feminismo, eu militei no Movimento de Mulheres, no Movimento Feminista, auto-organização de mulheres dentro de partido, auto-organização de mulheres dentro de movimento sociais. Eu via que realmente o gênero estava no centro, mas como não tinha essa questão de raça não era pautada, e quando era não era levada como algo fundamental naqueles espaços. Sempre se falava no homem universal e na mulher universal. E o mulherismo africana o que mais me chama atenção até hoje é que a gente consegue falar de nós, enquanto pessoas pretas, enquanto povo, não enquanto mulher negra separada do homem negro, porque nós estamos juntos nesse mesmo processo racista, colonial. E aí eu vi que eu tava deixando de lado pessoas muito importantes pra luta que eram os homens negros. E então, claro que a gente é atravessado pelo ocidente, estamos vivendo num país ocidentalizado, mas eu acho que ampliar esse meu horizonte, para poder enxergar que nós estamos aqui enquanto povo, enquanto mulher, enquanto homem, enquanto criança, enquanto velhos, enquanto povo preto. Eu acho que isso me deu uma dimensão e um acolhimento maior. 

Falando de ações práticas,  como você traz a teoria do Mulherismo Africana para sua vida?

Na verdade, é uma prática que nasce dessa teoria, mas assim, não necessariamente eu encontro um grupo, por exemplo, eu tenho muita vontade de estar junto com mulheres que são mulheristas africanas, mas ainda não encontrei esse grupo, realmente eu não conheço, porque aqui o Mulherismo Africana ainda é pouco difundido. Não sei como vai ser com relação a essa questão mais prática, não sei muito sobre isso. Como eu falei, eu conheço, mas é a partir de pessoas que conheci através das redes sociais, não de um movimento ou grupo específico, e nem de como se dá a prática no continente africano. 

 

Na verdade, o mulherismo africana, pela minha percepção, e pelo que eu entendo teoricamente, ele é muito da observação de uma cosmopercepção africana que as mulheres tiveram de enxergar como que as sociedades, como que as comunidades africanas se organizam. E a partir disso, vê que aquilo ali não faz muito sentido a gente querer chamar de feminismo. Por mais que tenham mulheres que estão à frente das famílias, politicamente, economicamente, enfim, em todos os setores da sociedade africana. Na sociedade africana as mulheres estão envolvidas e tem um papel importante assim como também tem os homens, assim como tem as crianças, assim como tem os mais velhos. Então, eu conheço mais nessa perspectiva. Não numa perspectiva de, “ah! Eu vou te indicar esse movimento, vou te explicar como que ele se organiza". 

 

Na minha prática, enquanto mulherista africana, é uma coisa muito natural, porque, como eu disse, eu não estou auto-organizada, em nenhum movimento de mulheres. A minha prática é primeiramente teórica, de tentar ver como é que essa teoria vai me ajudar a refletir para uma vida prática enquanto mulher preta. E aí, nas minhas relações familiares, apesar de estar dentro de um contexto de uma família interracial, mas na minha relação afetivo sexual com meu companheiro, na família que eu quero formar, enfim, todos os projetos da minha vida, que eu estou inserida, que eu tento fazer com que seja de alguma forma afroreferenciada, por mais difícil que seja, né?

 

E assim, sinto falta de estar mais comprometida, mas faço parte de um instituto de formação, de homens e mulheres, que luta pela importância  da formação do povo negro cearense, que é o Instituto de formação José Napoleão. Estou dentro desse grupo de  pessoas pretas, mas não é um grupo mulherista, por exemplo.

Você acredita que a resistência de  minorias negras a teoria mulherista africana pode estar dificultando na organização do movimento ou na organização de grupos de mulheres mulheristas?

Considero bem complicado eu afirmar isso. Eu não posso afirmar que é isso a causa de não haver movimentos, porque o que eu acredito é que essas mulheres que são mulheristas africanas, como eu sou, estão organizadas de alguma forma. A gente não está sozinha, isolada, pensando como é o mulherismo africana, a gente só não tem esse grupo formado. 
 
Um dos movimentos que tem me levado tanto para o mulherismo africana, como para práticas mais afrorreferenciadas, tem sido a questão do movimento de sankofa, de olhar pra trás, de saber de onde vim, de saber da minha ancestralidade. Esse movimento de “voltar pra casa”, que algumas pessoas tem chamado. 
 
Então eu vejo uma certa resistência, porque pra mim foi um movimento difícil, esse de retorno ancestral, de voltar pra casa, porque você passa anos militando com uma causa e, de repente, aquilo ali não faz mais sentido. Você tem que reorganizar toda sua cabeça. Enfim, é um movimento de destruição. Pelo menos, pra mim, é destruir tudo aquilo que eu pensava com relação ao que é gênero, ao que é ser mulher, ao que é ser homem negro, enfim, enquanto povo. Então, é um movimento muito complicado. Ser anticolonial num mundo atravessado pelo colonialismo é muito duro, mas é necessário.

Nem todo mundo tá muito disposto a quebrar tudo isso. Esse negócio de enegrecer as coisas, “Vamos enegrecer o feminismo, vamos enegrecer tal coisa, vamos descolonizar tal coisa", pra mim não faz mais sentido, exatamente porque nós estamos falando de um continente mãe, que tem práticas e experiências milenares, que temos construído intelectualmente, politicamente, em todos os setores que você imaginar da sociedade. A ciência, a filosofia que tem matrizes africanas, então porque eu vou tornar negro uma coisa que já tem uma origem preta? Então, pra mim, não faz sentido.
 
Talvez o movimento de resistência seja, também, teórico mesmo. Você vai ter que deixar de pensar sobre tudo que você pensou. Teoricamente você construiu uma teoria aliada ao feminismo, que aí você tem grandes referências de feminismo negro. Com mulheres negras incríveis, intelectuais importantes que são feministas. É complicado, porque você vai tentar destruir aquilo e voltar pra casa. Não é inventar algo, aprendi o que eu estou falando aqui, não é nada meu, não estou inventando nada, são coisas que pessoas que vieram antes de mim falaram e eu fui aprendendo, estou aprendendo, a gente nunca vai deixar de aprender. E aí eu acho que realmente é um movimento muito radical. Eu tive que ser muito radical e muito firme a esse ponto de deixar toda essa teoria feminista pra trás que não me fazia mais sentido, e beber do continente africano. Então, se há essa resistência, eu não sei se é o motivo para não ser ter grupos. Mas que as mulheristas africanas estão organizadas, elas estão, agora não necessariamente em um grupo específico de mulheristas africanas.

Explica um pouco que ações e situações mudaram na sua vida e no seu comportamento depois que você passou a conhecer e a estudar o Mulherismo Africana?

Não sei se tem efetivamente uma prática, mas se existir pra mim, é mais no sentido de como eu enxergo os homens negros, por exemplo, que eu acho que eu fiquei tanto tempo, até me senti muito culpada, “Meu Deus! Eu passei tanto tempo nesse feminismo, e era só as mulheres, e as mulheres (como se fosse uma coisa só!). E os homens negros também estão numa situação de vulnerabilidade e de genocídio, assim como a gente".
 
O Mulherismo Africana tem esse nome porque o matriarcado é o fundamental, é o fundante. E aí, que é justamente pra quebrar essa questão de que o patriarcado é universal,. Então, no meu cotidiano ele está inserido a partir de um novo olhar para a minha mãe, que é uma mulher negra, de olhar para as pessoas negras da minha família, da minha comunidade, as pessoas que estão perto de mim, as minhas amizades, como é que se estrutura. E eu tenho que trazer isso, talvez não em forma de comportamento, mas nos meus escritos, principalmente. 
 
É muito no sentido mesmo da reflexão, e no comportamento e mais, das minhas relações, nos meus relacionamentos interpessoais entre homens e mulheres negras. Não necessariamente pessoas que estão “organizadas”, que estão em movimentos. Meu irmão, que é um homem negro, que eu comecei a olhar pra ele com mais afeto, com mais carinho, e não no sentido de julgar, “ele é homem, ele é machista e ponto final", como eu fazia antes. Não, ele não é só isso, ele tem outras coisas. Não é isso que o define. E enxergar no comportamento mais cotidiano no sentido prático, assim, mais os afetos mesmo, no sentido de como o mulherismo africana ele me fez enxergar, com mais afeto, não só as mulheres negras, mas também os homens negros, as crianças, os mais velhos.

Sabendo que as vivências da população negra da diáspora brasileira são diferentes dos seus ancestrais da mãe África, como se dar essa busca dentro do mulherismo para que seja feito essa conexão com a ancestralidade e trazer as devidas modificações sem perder a essência? Quais seriam essas mudanças?

O Mulherismo Africana  ele não nasce no continente, ele é uma teoria que foi criada por uma mulher afro-americana, Cleonora Hudson em 1987. Mas obviamente, ele foi criado com esse olhar para o continente, a partir da cosmopercepção africana. talvez o caminho de dizer assim, “ah, é muito complicado trazer as práticas do Mulherismo Africana para as diásporas", e na teoria ele foi criado na diáspora africana e não no continente. Trazendo aqui mais pra realidade do Brasil, e aí não é uma resposta que é certa ou errada, mas refletindo agora, nas comunidades africanas, por exemplo, você ainda consegue encontrar, o homem, a mulher, a criança, o idoso, dentro das comunidades. Aqui no Brasil, esse processo foi desestruturado pela colonização. Então assim, a gente tem que analisar os diversos fatores que fazem com que a gente não consiga ter uma prática, não só no mulherismo africana, mas no sentido de olhar o continente africano como referência.
 
Não tem como a gente implantar uma coisa do continente e trazer igual pra cá, e também entender que o continente africano tem os seus problemas. Não é simplesmente fantasiar que o continente africano é lindo, maravilhoso, as comunidades são perfeitas, obviamente que eles também foram atravessados pelo processo de colonialismo e até hoje são atravessados por isso, assim como a gente é. Mas aí pensar de trazer exatamente igual pra cá é muito complicado, porque a gente tá desestruturado enquanto comunidade. 
 
A gente, obviamente, ainda tem experiências que se você for analisar dentro das comunidades, nas periferias, nas favelas,  existe um processo de comunidade, que os laços ainda são muito fortes. Por exemplo, você tem uma família negra, pai, mãe, ou então, só mãe, aí tem filha, essa filha casa, ela não se muda, ela fica na casa da mãe, constrói uma casa em cima, constrói no mesmo terreno, então essa comunidade vai ficando ali. Talvez isso pra mim, seja uma experiência não necessariamente do mulherismo africano , mas da experiência de comunidade africana, que a gente tem por causa desse processo da diáspora. Então, como eu disse, é muito difícil, mas talvez isso seja um caminho. A desestruturação da comunidade fez com que as práticas sejam muito difíceis de serem organizadas, de fato. 
 
Agora, outra coisa muito importante que eu não posso deixar de falar, principalmente porque sou abiã de candomblé. Os terreiros de candomblé pra mim, eles representam essa comunidade. Não necessariamente de laços consanguíneos. Nele existem os pais, as mães de santo, os irmãos de santo, que não necessariamente são de sangue. Se a gente for olhar para as experiências do povo de terreiro, povo de Candomblé, a gente vai encontrar experiências muito parecidas com o que a gente encontra no continente africano, seja a cultura, a culinária de santo, as músicas, a linguagem, a oralidade, ou seja, diversas coisas, os rituais. A gente vai encontrar essa ligação muito forte ainda com o continente. Assim, claro que o candomblé não existe no continente africano, é uma experiência que foi trazida, a partir de experiências religiosas do continente, e que foi sendo solidificada aqui no Brasil, mas se você for olhar pros terreiros de Candomblé, eu acho que você consegue encontrar práticas muito parecidas com o que a gente encontra no continente africano hoje.

Quando a gente fala do Mulherismo Africana, sempre vem aquela comparação, do que essa teoria se diferencia do feminismo negro. Você que já participou de movimento feminista, não foram de mulheres negros, e sim mistas, mas conhece bastante sobre, tem leituras sobre ambas. Quais são essas diferenças?

A questão teórica, porque como eu tinha falado antes, o feminismo, negro é uma teoria que vem através do feminismo (ocidental/branco). Primeiro nasceu feminismo, e depois as mulheres negras foram vendo que aquela auto-organização com as mulheres brancas, não estava dando muito certo, porque elas não eram ouvidas nos espaços, e a questão racial não era importante pras mulheres brancas, e aí elas foram se auto-organizando enquanto feministas negras. Assim, isso bem a grosso modo, é claro, porque tem mais coisa do que isso. Mas, se a gente for dizer uma diferença entre mulherismo africana e o feminismo negro, pra mim é essa questão teórica, de a gente não necessitar de uma teoria ocidental, para poder se auto-organizar, porque assim, o feminismo negro tem sua origem no feminismo ocidental, e o mulherismo africana nasce a partir da experiência afrorreferenciada, afrocentrada, centrada no continente africano. 


A grande diferença é que o Mulherismo Africana é afrocentrado, até a Anin Urasse vai falar, “Toda mulherista africana é afrocentrada". Então, não tem como você ser mulherista africana e feminista negra ao mesmo tempo, porque o feminismo ele nasce numa perspectiva branco- ocidental. Então, mesmo essas mulheres negras organizadas no feminismo, elas estão inseridas nesse processo de leitura, de teoria, que o referencial teórico é baseado no ocidente.

Nessa questão de maternidade, existe alguma troca com a tua mãe, ou tuas avós, dessa questão de coisas que mudaram a tua relação com elas, depois que você começou a ler e a conhecer a teoria, ou de coisas que estão na teoria que você já observava nelas?

A minha única avó viva é uma mulher branca, mãe do meu pai. Eu sou filha de mulher negra e pai branco, e aí a minha avó negra, ela já faleceu, eu nem era nascida, ou seja, não cheguei a conhecer. Mas quando me aproximei do mulherismo africana, das leituras, eu comecei a ter mais curiosidade de saber sobre a questão da minha ancestralidade, principalmente quando eu me aproximei do candomblé. E aí eu tive muita curiosidade de saber como era a minha família, as práticas, se alguém já tinha visitado terreiro. Então nesse sentido eu fiquei muito curiosa, ainda sou muito curiosa, porque infelizmente as pessoas mais velhas da minha família não falam muito. Minha mãe não fala muito, ela fala sobre coisas da infância dela, algumas coisas muito pontuais que eu sei desde criança, que escuto desde criança.
 
Até hoje continuo fazendo um exercício de refletir sobre as coisas que eu já ouvi, e penso, “Poxa! Isso é uma prática africana!". Essas práticas, tanto da cozinha, quanto de organização familiar, da mulher estar sempre à frente. Em casa, a minha mãe sempre foi aquela que saiu pra trabalhar e trabalhava dentro de casa. Então, referência de cuidado,  que é uma experiência muito africana, das mulheres negras estarem assim na frente das coisas, de botar as caras mesmo, de criar o filho, mesmo que seja sozinha, se não tiver ajuda do marido, se não tiver o pai. Não estou dizendo que isso é o ideal, o ideal é que a gente se organize comunitariamente! Essas coisas me fizeram refletir, não tô dizendo e nem posso dizer, “a minha mãe é feminista, a minha mãe é isso", não vou encaixar a minha mãe e nem pessoas da minha família dentro de uma teoria, mas as práticas que eu vejo em casa, ficam muito evidentes de que são práticas africanas, que ela aprendeu com a com a mãe, que a mãe aprendeu com a vó, enfim, que foi passado de geração em geração. E que eu entendi que tem sido perpassado de mulher para mulher. 
 
Infelizmente, não tenho muita convivência, nem contato, e nem escuto muito falar de homens negros (os mais velhos) na minha família, de uma descendência, de uma origem de homens negros da minha família. Pode ser que tenha? Pode ser que tenha, mas aí talvez um pouco mais lá para trás, e não se fala nisso. Muito difícil obter essas informações da família. As coisas que eu vejo e me lembro muito das práticas do continente, são essas da questão mesmo da agência, das potencialidades das mulheres negras, das minhas tias negras também. É muito essa questão que eu tava falando da comunidade, por exemplo, quando minha mãe não estava em casa, quando saí pro trabalho, eu estava na casa da minha tia. Então, eu não cresci só com a minha mãe, porque no Continente Africano também tem isso. Que é uma das coisas muito violentas que acontecem na diáspora, a mulher, ela é a principal responsável pela educação e a criação das crianças, no continente africano não, é o tio, é o irmão, são os avós, todo mundo.
 
Existe até um provérbio que diz, “Para se criar uma criança é necessário toda uma aldeia". Uma aldeia inteira para criar uma criança, não só o papel da mãe, por isso que essa coisa de mãe solo é muito violento, porque a mulher fica responsável por tudo, e é impossível você responsabilizar um único ser humano por gerar, parir, criar a criança até a fase adulta. E aí é isso, eu não passava só tempo com a minha mãe, eu passava com as minhas tias também. Então, essa questão do cuidado era mais horizontalizada, não ficava o peso só para a minha mãe. Então eu ficava na casa da minha tia, a gente passeava, ia para a casa de outras tias, era uma coisa assim que a gente ainda consegue encontrar, mesmo que minimamente, a gente consegue encontrar experiências dessas. Então, acho que se for por aí, eu acho que é isso.

A socióloga Patrícia Collins, explica que o quê diferencia entre mulherismo africana e feminismo negro, é que a teoria tem a intenção de fazer com que mulheres negras possam abordar a questão da opressão de gênero sem precisar necessariamente atacar os homens negros. Qual é o papel do homem negro dentro do mulherismo africano?

Assim, se forem homens que estão próximos dessas mulheres, por exemplo, meu companheiro, ele tá próximo de uma mulher que é mulherista africana. Então se forem homens que estão dispostas a entrar em contato com essa teoria, se aproximar, entender como é, talvez não é nem disposição, porque eu fico pensando, “ah, mas os homens negros, eles não vão se interessar", mas às vezes, é muito esse movimento de que as mulheres negras estão à frente, não na frente no sentido de que os homens vem atrás, ou quem vem atrás são os outros e a gente tá aqui na frente. Como eu falei, lá no começo, a ideia é que a gente se organize enquanto  povo, e não enquanto mulher, enquanto criança, enquanto isso, enquanto aquilo, segmentadamente.
 
O movimento é mútuo, porque se eu conheço o mulherismo africano, eu vou querer apresentar pros homens negros que estão próximos a mim, vou fazer questão de conversar com eles. Ainda que esse movimento ainda não exista pra mim, de “ah, eu estou numa roda com homens negros e vou conversar com eles sobre isso". Porque, realmente, eu tô chegando agora, e ainda tô engatinhando teoricamente sobre mulherismo africana. Nas práticas também, porque a minha prática é quem eu sou, são as coisas que eu vivo, que eu vou aprendendo, e a teoria, às vezes, vai se encaixando ou não, porque não é uma coisa engessada e que eu moldo na minha vida. 
 
Mas com relação aos homens negros, eu acho que o que fica pra eles, e que eu vejo muito também a Anin Urasse  falando é que, por exemplo, quando existe uma prática machista de um homem, que tá ali com uma mulher preta, principalmente aquelas mulheres pretas que estão a frente da luta sobre a questão racial e aí rola algum vacilo, é de tentar explicar pra ele, “olha, não é por aí", e não de dizer assim, “anula esse homem, ele já não serve pra nada, porque ele foi machista", como se nós também mulheres negras não fossemos atravessadas por isso, entendeu? Porque todo mundo que é africano em diáspora está atravessado pelo ocidente. Até a Anin Urasse mesmo fala, de um exercício que faz, ela se pergunta, “o que é que eu vou matar na mulher branca que existe em mim, hoje?" 
 
A ideia do homem preto violento é racista! Isso foi criado pelo branco como argumento pra matar, prender e genocidar nossos homens. E tem uma coisa: eu não quero me desocidentalizar e que meu companheiro fique não participe desse processo comigo. Eu falo pra ele, “ó, você tá sendo machista, isso é muito ruim, é errado", eu chamo a atenção dele. Eu não vou simplesmente excluir, cancelar da minha vida, porque ele foi machista. Agora, óbvio que esse processo de violência, de bater, de violência psicológica, já é outra questão, mas talvez um dos caminhos, é a educação das nossas crianças pretas, para que elas não cresçam igual aquele homem violento, não batam nas suas mulheres, não batam nas nossas irmãs.
 
Então, é um processo que a gente tá à frente, e se estamos à frente, a gente vai ter que fazer. A gente não leu? A gente não sabe como é? A gente não quer praticar? Por quê que a gente não vai praticar com os homens também? Com nossas crianças… Como é que a gente vai avançar enquanto mulher e os homens pretos vão ficar “pra trás”? Obviamente que os homens pretos são machistas, mas, gente, quem não é? O homem branco é um príncipe, né? A gente tá vivendo em um país patriarcal, nossa referência não é matriarcal aqui no Brasil, por mais que existam algumas experiências. E uma das coisas que eu acho fundamental, que eu vi acontecendo nos últimos anos, são grupos de homens negros discutindo masculinidades negras. Isso é muito importante, porque aí não é a mulher que vai ficar ensinando pra eles, (se essa for uma questão), eles tão lá fazendo o papel deles, a parte deles. E aí a gente vai se somar junto na luta. Se eu puder, um dia conversar com homens negros, se eles se interessarem de conversar comigo, eu vou conversar com eles sobre isso.  O homem preto também foi atravessado por todos os processos que a gente foi, obviamente que vão ser vivenciados de forma diferente. Mas uma das coisas que eu aprendi, é que homem negro nenhum tem vantagem nenhuma. E isso faz parte do processo de desumanização pela qual passamos e continua (…).

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