

Taiane
Alves
Por Natielly Silva
& Eduardo Silva
No Brasil a partir dos anos de 1970 o Feminismo Negro tem seu efetivo início e fortalecimento articulado pelo Movimento de Mulherres Negras (MMN). Não encontrando lugar para a discussão de uma abordagem conjunta das pautas de gênero e raça nos movimentos sociais da época, as mulheres negras resolvem se organizar na busca de uma reivindicação de seus direitos.
O Especial Ayabás conversou nesse Diálogos com a Taiane Alves, 28, que fala de sua experiência enquanto feminista negra e sua pesquisa com Mães Solos Negras na cidade de Fortaleza.
Nascida em um lar chefiado por mulheres negras, filha de mãe solo e mestranda em Antropologia Taiane encontrou no Feminismo Negro um local de acolhida e identificação para com suas pares, “foi como um sopro de vida dando completude as experiências que eu já tinha vivenciado, porém eu não conseguia dar nome”,explica a pesquisadora.
Como foi o seu primeiro contato com o Feminismo até conhecer o Feminismo Negro?
Me tornar mulher negra e me entender enquanto feminista advém de uma relação familiar. Na minha escrita eu sempre trago essa questão da conexão com a ancestralidade porque eu advenho de uma configuração familiar que era rodeada de mulheres negras retintas, e aí isso deu muito tom da construção do meu olhar enquanto mulher também, de questionar desde criança em algumas questões, e isso foi amadurecendo e sofisticando a partir da minha atuação profissional e acadêmica. Aos 15 anos eu passei por um processo formativo, foi o meu primeiro contato, de forma mais acadêmica ou teórica acerca da teoria feminista. Na prática já existia esse instinto e essa percepção de me tornar uma mulher feminista, mas o contato com a teoria advém dos movimentos sociais. E aí foi a inserção dentro de uma ONG e o contato também com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs do movimento estudantil), que eu fui sendo uma instrumentação para com o movimento social. A princípio mais com o campo teórico dos direitos humanos, e posteriormente eu fui me afunilando e me percebendo enquanto mulher, o que é esse tornar-se mulher negra. Esse despertar se deu a partir do contato com o movimento social, e principalmente com as irmãs, outras mulheres negras, que a partir da coletividade esse empoderar-se que não é individual, o empoderamento ele acontece de forma coletiva.
O marco mesmo, advém desse contato, dessa atuação profissional com a ONG, e depois na universidade, e aí já tava um pouco mais velha, entorno dos 19 para 20 anos, eu fui me aprofundando mais acerca do Feminismo Negro, e coincidiu também com a minha atuação e com a aproximação em termos de companheirismo de movimento social com outras mulheres negras que componham o Movimento Juventude Negra Kalunga. Era uma série de garotas, algumas da universidade, outras fora da universidade, produzindo e atuando dentro da cidade de Fortaleza sobre o Movimento Juventude Negra. A partir desse contato com essas meninas que eu fui me empoderando e me aproximando cada vez mais da teoria feminista negra. Coincidiu também com a minha formação em Ciências Sociais, acho que a minha formação foi um divisor de águas. Eu vinha de um termo de abstração mais prática de atuação mesmo profissional, e quando eu entrei nas Ciências Sociais comecei a instrumentalizar teoricamente essa atuação prática. E foi um contato de forma muito incipiente, porque a minha formação em Ciências Sociais ela é ainda extremamente pautada por um conhecimento euro-americano, branco e heterossexual.
Pra mim que fiz parte, eu fui tendo contato com outras experiências e despertando para essa atuação do Feminismo Negro, e que estava muito orientado assim com a minha vivência, com a minha poética de vida no sentido de que o Feminismo Negro falava sobre mim, a minha realidade, foi como um sopro de vida e completude acerca de experiências que eu já tinha vivenciado, porém eu não conseguia dar nome. O Feminino Negro foi como esse alento, no sentido de dizer assim, “São experiências próximas, que outras mulheres negras também já vivenciaram, que você está por vivenciar e dar o senso de coletividade, que você não está só nessa caminhada". Tento entender essa prática da teoria feminista negra e vivenciar em profundidade pra que a gente possa guardar coerência mesmo, e respeito também para com as nossas mais velhas. Se hoje eu acesso à universidade a partir de uma política de ações afirmativas, é fruto de mulheres que me antecederam. E reverenciar essas mais velhas é um movimento também importante e do qual eu aprendo cotidianamente a cerca do que seja a prática de um Feminismo Negro.
Qual foi a principal mudança quando você se percebeu enquanto uma feminista negra?
A ruptura foi quando eu percebi que a teoria feminista clássica euro-americana já não dava conta da minha experiência, e começou a partir da pauta do corpo. Nas Ciências Sociais tem um evento chamado ENECS (Encontro Nacional de Estudos de Ciências Sociais), e lá tinha dentro do evento algumas atividades, e muitas das colegas brancas feministas desconstruídas que estavam tendo contato com a primeira teoria das liberdades sexuais, elas tiravam a roupa tranquilamente, mostravam os seios, e esse foi o primeiro confronto de pensar assim, “essa teoria talvez não me caiba, porque historicamente eu já tive o meu corpo violado enquanto mulher negra, a partir da objetificação. E foi esse confronto de dizer assim, “essa teoria não guarda minhas experiências, porque quando criança e adolescente a principal preocupação de mães negras é que suas filhas sejam violentadas, e aí tinha um resguardo acerca do corpo, não no sentido moralista, “ah eu não vou tirar a roupa", mas no sentido de que historicamente para nós enquanto mulheres negras tem outro sentido tirar a blusa, porque é reconectar com a herança colonial, com o colonialismo que é extremamente presente no nosso cotidiano a partir dos episódios de racismo. Então o grande divisor de águas de eu me perceber e de ter contato, e saber que existem inúmeras ramificações de uma teoria feminista foi na universidade. Na universidade eu consegui visualizar que enquanto algumas meninas brancas de classe média estavam reivindicando a possibilidade de trabalhar, eu sempre trabalhei desde os 15 anos de idade, na verdade desde que eu me entendo por gente eu trabalhei, ou seja, nossas trajetórias de vida são diferentes, a gente parte de lugares diferentes, enquanto muitos estavam solicitando uma determinada liberdade sexual, a gente desde criança teve nossos corpos violados, e os abusos, e as invertidas dentro dos transportes escolares. Essas coisas do cotidiano me fez perceber que tinha algo diferente acerca daquela teoria feminista clássica, da mulher branca universal, e não condizia com a minha realidade.
E isso foi me conectando porque eu não achava sentido acerca de uma teoria mais geral do feminismo universal dessas mulheres brancas, e eu acabava me sentindo um pouco deslocada. Tinha uma afinidade pelo fato de ser o primeiro contato acerca da teoria feminista, e por já vim trabalhando com essas questões. A princípio o que implode em termos de ondas do feminismo são essas questões universais, dos questionamentos do “tornar-se mulher", mas eu percebi que nesse conceito eu não era aquela mulher branca, ou seja, aquela teoria não fazia sentido pra minha experiência prática. Acredito que os episódios que foram instrumentalizando a minha experiência na universidade e a observação, por exemplo, minhas companheiras que se diziam feministas passavam o dia na universidade, e eu saia correndo para o trabalho depois da aula. Eram experiências que eram muito diferentes. Não que as pautas delas não sejam necessárias, eu acho que a gente caminhou muito acerca dessas primeiras feministas, mas essa teoria dessa mulher universal em termos de acesso a alguns direitos, não dá vazão para a realidade de outras mulheres, principalmente mulheres pobres, pretas, periféricas que vem de configurações familiares muito distintas daquelas que elas experienciam. Então em termo de cunhar a resposta, eu creio que um ponto de distinção entre uma teoria feminista mais clássica e a experiência do Feminismo Negro foi um sentido de acolhida com as minhas irmãs, mulheres negras do movimento. Quando você encontra eco nas suas palavras para dizer assim, “passei por essa experiência acerca do racismo", e você ver naquela outra companheira que tem algo em comum, que postura as nossas histórias de vida, isso foi um sopro, de dizer “não estou só". Por isso que pra mim a tradução da experiência de um Feminismo Negro é o senso de coletividade, de acolhida, de amparo, de conexão também com a ancestralidade, que vai nos guiando, e vai instrumentalizando os nossos passos no sentido que eles vem de muito longe, não são necessariamente de agora.
Como foi que o Feminismo Negro te ajudou com questões referentes ao reconhecimento da sua ancestralidade, e da identidade familiar com esses ensinamentos anteriores?
Me ajudou no sentido de ter um olhar mais generoso com as minhas mais velhas. Por isso que eu digo que a teoria e a vivência do Feminismo negro me deixou mais grata e mais sensível. Porque até então eu não compreendia alguns episódios que a minha mãe tinha passado, que minhas tias tinham passado, primeiro porque dentro dessa ideia de uma falsa democracia racial no Brasil, e por elas não terem acesso a leitura, os acessos que hoje eu tenho acerca de contato com o movimento social, com alguns referenciais teóricas, elas foram se desagenciando enquanto mulheres negras, incorporando o discurso da branquitude. Muitas vezes elas negaram essa identidade racial, percebiam, sabiam que não eram mulheres brancas obviamente, porém não tinham letramento racial, e aí a primeira virada de se conectar foi ter um olhar mais generoso para com elas também, de percebê-las enquanto mulheres mães solos, perceber elas enquanto mulheres racializadas. O diálogo que eu tive que travar com a minha mente até hoje, se dar em um sentido de um letramento racial dela (mãe) se perceber enquanto mulher negra, é um diálogo constante.
A ancestralidade me conectou com o senso de pertencimento, assim, de um mergulho no passado e de identificar algumas coisas, me conectou com o ato de cozinhar, das práticas cotidianas enquanto uma antropóloga em formação, me conectou a esse passado de identificar esses elementos. Por exemplo, eu nasci em uma casa com 15 pessoas, minhas quatro tias ficavam todas dentro da mesma casa, todas elas tiveram filhos, e ficou todo mundo dentro daquela mesma casa, na estrutura da periferia da cidade de Fortaleza. E ali, quando eu fui tendo os primeiros contatos com as primeiras leituras acerca do Feminismo Negro e com a teoria antropológica, percebi que nossa casa era um pequeno quilombo, de experiência de resistência de mulheres negras. E a ancestralidade me conectou principalmente com algo que eu tenho praticado, tenho vivenciado, que é a relação para com a comida, onde tem comida tem afeto. Essa prática da ancestralidade de me conectar com as minhas mais velhas como um ato de cultuar essas práticas alimentares, determinadas comidas, da forma de conduzir, e principalmente no sentido de ser coerente, porque às vezes a gente fala com uma experiência de um Feminismo Negro, e a gente não é generosa para com nossos pares, com quem tá perto de nós, com as nossas mães. E essa condução ancestral coincidiu se perceber primeiramente numa família negra e fazer esse processo regressão ao passado e entender algumas coisas, entender a questão da solidão das mulheres negras, entender a construção daquela estrutura familiar, e também de alguns traumas, porque nem tudo é romantização da pobreza ou das relações de família negra. Por essas questões de violação, de racismo, são mulheres que tiveram inúmeras marcas. E esta conexão com a ancestralidade dessas mulheres mais velhas da minha família me levou a um olhar de maior generosidade e também de me perceber, a partir da coletividade e incentivo de uma regressão às teorias do pan-africanismo ou do continente africano como uma grande mãe, de alguma coisa que nos conecta, porque na minha estrutura familiar existe um sequestro histórico. Eu só consigo ir em termos de memória até a minha avó, eu perdi o antes, não tenho acesso a quem foram os pais dela, e aí tudo isso fala de um passado colonial, de um sequestro da história, de um apagamento, de um epistemicídio.
Nos é negado esse senso de ancestralidade e logo também uma condução com a espiritualidade. Acredito que a ancestralidade nos diz muito sobre como a gente consegue conduzir nossos passos e como é necessário para além de uma produção de um conhecimento científico de a gente ter uma conexão com o plano das energias, que diz muito também dos nossos antepassados afrodiaspóricos. Creio que a ancestralidade é um caminho sem volta, a todo instante a gente está emergindo nesse contexto, e são ciclos na nossa trajetória, a gente vai amadurecendo, vai conseguindo identificar algumas coisas, mas principalmente para minha a tradução de ancestralidade tem sido respeito aos mais velhos. Ao conectar a história com essa memória afetiva, ela se restabelece a partir da família, da reinvenção também de afetividades e de estruturas familiares.
Taiane, você considera que pelo fato de vir de uma família de seio majoritariamente feminino negro, isso colaborou para que você caminhasse e conhecesse o Feminismo Negro? E que se construísse enquanto uma antropóloga que trabalha com a temática de Mulheres Negras Mãe Solo?
Se não fosse esse contexto familiar talvez não existisse Taiane, dentro das suas feridas, dentro das suas construções socioemocionais, porque eu desde a graduação trabalhei com a temática das mães solos. A princípio na graduação eu fui um pouco relutante, trabalhava mais com a estrutura de família afroameríndia, mais em uma perspectiva indígena. Pelas circunstâncias do tempo de ter que trabalhar e estudar e a viabilidade do campo, acabei nas incursões da idas e vindas redefinindo e trabalhando especificamente com mães solos. A minha pesquisa não é feita a partir da minha família, eu trabalho com mulheres de formas gerais residentes na cidade de Fortaleza, mas a minha estrutura familiar diz muito sobre a minha escrita. Estou tentando construir desde a graduação um processo de escrever na primeira pessoa, e a minha escrita vem muito dessa rememoração de acontecimentos do passado que reverberam no presente, em quem eu sou, na minha estrutura, dentro do que eu tenho tentado debater, que são membros do campo das afetividades.
Quais os sentidos que um abandono paterno causa nas nossas trajetórias familiares? E na minha trajetória enquanto mulher negra? Eu brinco que desde criança já tinha instinto de antropóloga, no sentido de questionar, de querer entender, porque na minha cabeça não fazia sentido aquela configuração familiar. No período de adolescente eu era muito inquieta e questionava, “Por que? Porque nossa família está desta forma?". Acredito que entrar nas Ciências Sociais foi pra mim meio que no sentido de buscar respostas, e o primeiro encontro com a trajetória de mãe solo é tanto no sentido de buscar respostas mais coletivas, mas também de buscar respostas individuais. Desde a graduação que eu tô tentando responder essa questão, “o que significa ser uma mãe solo", ou seja, a minha trajetória familiar ela vai dar o tom da minha trajetória intelectual. Pelo que eu tenho lido e vivenciado, o diferencial de nós mulheres negras é essa particularidade de sempre está costurando a nossa trajetória acadêmica para com a nossa trajetória individual e familiar. É difícil, também existe um peso, parece que a gente sempre tem que tá dando resposta, ou que a gente não pode pesquisar outras coisas. Mas eu acho que existe o peso dessa responsabilidade, mas também é muito gratificante no sentido de que você vai buscar mergulhar em questões que são muito profundas.
Assim, eu aprendi muito com Bell Hooks essa possibilidade de teorizar a nossa própria existência, nossas próprias biografias que também são políticas. E aí esse mergulho nessa minha trajetória familiar foi o que instrumentalizou e tem instrumentalizado a minha trajetória acadêmica. Enfim, é indissociável a minha trajetória familiar, da minha trajetória acadêmica, política, porque quando a gente pensa a interseccionalidade não só como teoria, mas também como prática e como uma experiência metodológica, é isso, é a intersecção, intercruzamento de pensar não de forma hierarquizada raça, classe e gênero, mas de forma que ela se interseccionam cada vez mais. Eu tenho dialogado bastante com uma teórica nigeriana, e ela me instrumentalizou muito com um trabalho de qualificação, os sentidos de que para a experiência iorubá no continente africano esses papéis de homem e mulher são categorias ocidentais, ou seja, gênero é uma categoria colonial também. Então questionar o que parece que tá naturalizado também é um ato importante.
Eu queria te perguntar a respeito das suas relações de amizades e amorosas, como elas são construídas e cultivadas com você sendo uma feminista negra?
É difícil, sabe? Porque eu digo sempre que é um caminho sem volta. Depois que você se encontra e se percebe em um todo você consegue ter concretude. É doloroso? É extremamente doloroso, porque no campo das relações afetivas você consegue instrumentalizar e entender algumas coisas que você já vivenciava, porém não sabia o que era, por exemplo, como no campo da solidão das mulheres negras, de entender que você não era preterida dos relacionamentos afetivos e, às vezes, até nas relações de amizade, principalmente quando você tem amizade com pessoas brancas, e o racismo ele vai estar presente, ele vai moldar essas relações de hierarquia. E aí o que eu fui aprendendo com o tempo, é que quando você tem amigas que são amigas racializadas, mulheres negras, há uma relação de irmandade que é diferente de amizade, que é mais profunda no sentido de um elo, de um pacto, de ter vivido, e de uma experiência compartilhada. Assim, "só vou ter amigos pretos?", não necessariamente, mas percebo que existem diferenciações, e eu tenho pensado muito acerca disso, de como a gente tende a passar por situações violentas quando temos amizade com pessoas brancas, violentas no sentido da naturalização realmente do racismo, de que você está sempre numa relação de servidão, e de como você mesmo sendo uma feminista, é um exercício cotidiano.
Não é porque eu sou uma feminista negra que eu vou estar isenta de estar em uma relação racista ou reproduzindo algumas relações violentas. Por isso também que eu digo que é mais doloroso, porque parece que a gente ganha um olhar que é diferenciado pra sociedade, que a gente consegue visualizar de forma diferente como você é tratada, como os episódios de distinções sociais são postos. A relação que eu tenho com as minhas amigas que são negras é uma, e a relação que eu tenho com minhas amigas que são brancas tem limitações, a gente vai aprendendo que vai ter limitações e que está sujeitos a episódios de racismo no mesmo, porque a gente tem um um processo das pessoas que são brancas de se perceberem também de forma racializada e como reprodutoras e praticantes do racismo. Me distanciou de algumas pessoas, obviamente, porque você fica um pouco mais crítico, e isso também te dá um senso de solidão. Quando você vai se inserindo dentro do universo acadêmico, universitário cada vez é mais presente o sentimento de solidão de ser às vezes a única ou você mais uma outra amiga que são pretas, o resto da turma é todo branco, e aí você vê nos diálogos de sala de aula, como estão distantes da sua realidade. E na minha experiência do Mestrado, por exemplo, em termos acadêmicos, foi meio que se aquilombar mesmo. Eu percebi que tenho uma afinidade para com a minha turma como um todo, um senso de coletividade, mas de irmandades, de estar junto, de querer construir um projeto estão com as pessoas negras.
Hoje em dia foi passado os dois anos do mestrado, eu consegui visualizar quais pessoas eu trago pra minha existência, pra minha vida, e quais eu construí uma relação de coleguismo. As pessoas brancas eu acho que construí uma relação de coleguismo, de parceria e de sala. As pessoas pretas eu acho que tem uma construção de uma irmandade, mesmo que esteja uns dias mais distantes, sem uma conexão, tem uma relação de cuidado, de perguntar como é que está, de trocar “figurinhas" acerca da experiência e da escrita. O feminismo negro me trouxe isso, sabe? De ser um pouco mais seletiva. Eu acho que eu era uma pessoa muito iludida a princípio, mas quando eu fui amadurecendo e me conectando mais com a experiência prática de uma vivência de um Feminismo Negro, com o senso de irmandade preto me tornou um pouco mais seletiva, mas é algo que eu ainda tenho a aprender. No campo dos relacionamentos mais íntimos, em termos de companheiro e tudo mais, eu percebo que tem alguns episódios, mas você vai meio que mediando, mas é sempre com um olhar de criticidade, de sempre estar atenta e vigilante, porque como eu tinha colocado, mesmo você sendo feminista você não está isenta de passar por alguns episódios de machismo que estão tão enraizados. Eu tento trabalhar essa desconstrução do olhar, da desnaturalização do machismo, e construindo novas sociabilidades, novas relações e aí tem sido isso.
Na sua jornada no Feminismo Negro quais foram as suas oportunidades de passar para frente o aprendizado e experiências de irmandade com outras mulheres negras?
Assim, a minha experiência acho que a mais pedagógica e talvez mais exitosa, porque uma coisa é você falar entre suas pares, muito bonitinho construir um ativismo dentro do movimento social dentro da universidade, acho que o maior desafio talvez tenha sido um letramento racial extremista para com a minha mãe. Uma mulher que não sabe ler e nem escrever, que teve toda a naturalização do racismo, até hoje que tem um acesso extremamente limitado a essas teorias, e fazer um processo de tradução. Por isso que eu digo que é fácil falar entre os nossos pares em um discurso extremamente bonito, organizado, mas fazer esse processo de tradução, de coerência, e de uma experiência prática acerca do feminismo negro é outra questão. Acho que a experiência do movimento social me diz muito sobre essa capacidade de tradução, de falar com outras mulheres negras de experiências muito distintas. Isso diz muito também de uma atuação de duas oficinas que eu fiz no presídio Auri Moura Costa com mulheres em reclusão, lá no presídio tem tipo uma maternidade, e lá junto com o projeto das mulheres negras do Inegra (Instituo Negra do Ceará), que é um movimento de mulheres negras aqui de Fortaleza, a gente fez uma oficina sobre maternidade e feminismo negro com essas mulheres, mas era mais uma relação ali que a gente construiu em uma oficina de relações de autocuidado dessas mulheres, e o feminismo negro diz muito disso, como a gente constrói a partir das nossas grandes matriarcas do feminismo essa relação de acolhimento, de cuidado, de afetividade. E é no movimento de mulheres negras que a gente vai encontrando ressonância, relações de autocuidado, de escuta.
O mundo nos bombardeia no sentido de que temos que performar uma imagem de controle da mulher superposta negra, e não necessariamente, tá tudo bem ser fraca também, porque isto é uma estrutura também do colonialismo que nos emprega imagens de controle, seja da boa mãe, da mulher negra forte, às vezes, você performa essa mulher forte e cuida de todo mundo mas não tem ninguém que cuide de você, que lhe ampare. A experiência que me marcou muito nessas oficinas foi que a gente fez um processo de escalda pés, que é uma reconexão também histórica e ancestral. Fizemos esse processo de autocuidado com as mulheres, e isso me marcou muito, e também tinha uma instrumentalização mais teórica. Por três anos eu atuei como facilitadora de um projeto da Prefeitura Municipal de Fortaleza “Quero reconhecer e mudar", lá durante os três anos eu fiz a capacitação dos jovens multiplicadores acerca do campo das relações étnicorraciais e foi muito exitoso, porque como eu venho desse campo do movimento social eu acho que teoria e prática elas tem que está imbricadas, e lá foi essa oportunidade assim de está teorizando acerca do campo das relações étnicorraciais mas também está vivenciando. Com os jovens eu fazia o processo de tornar-se, de se perceber, e de como construir um processo de autodeclaração porque é muito importante dentro de uma sociedade que nega, principalmente dentro do estado do Ceará, essa identidade de pessoas negras, e você se perceber enquanto pessoa racializada é um parto, é algo muito importante.
E aí dialogar com eles acerca da experiência do que sejam relações étnicorraciais, de identificar o que é o racismo, é algo tão gratificante, deu concretude ao que eu venho estudando, ao que eu venho teorizando e o que eu venho experienciando, porque sempre tem sido isso, eu tenho tentado a medida do possível construir uma teoria, um diálogo que seja acessível e isso é um posicionamento político. Eu creio que mais do que nunca a gente tem que falar para além dos muros da universidade, e aí dialogar para com os nossos pares, com outras pessoas é algo político e importante de difusão. Debater acerca de um letramento racial, e de ver jovens no início da oficina se diziam pardos e ao término do processo formativos se reconheciam enquanto pretos, negros é algo muito gratificante, dá sentido a nossa luta e o que eu tenho cada vez mais entendido que está pra além da minha existência. Na minha experiência universitária eu sempre tento ser coerente e ser acolhedora com as minhas outras irmãs negras. A gente tem trocado ideias, e incentivado outras mulheres negras a se inserir dentro de uma pós-graduação, dentro de uma graduação, auxiliar nos processos de seleção de um mestrado, de um doutorado, isso também é um posicionamento político, sabe? De você acreditar que por acessar uma universidade pública de qualidade, que outras pessoas que tenham uma realidade muito próxima também possam experienciar isso. E aí quando eu entrei no Mestrado na turma seguinte eu disse pra mim, “é um compromisso político, que eu possa viabilizar a entrada e assessorar outras mulheres negras a entrar também nesse Mestrado, e aí me disponibilizei a está lendo os projetos, a tá trocando idéias acerca do referencial teórico da prova escrita, e isso foi uma experiência muito boa foi o maior sentido da realização do sonho da pós-graduação, e que não terminar em mim, e assim a gente tem seguido, uma entra puxar a outra e assim é uma corrente que vai se passando. Às vezes é muito fácil ter um discurso bonitinho, organizado, mas às vezes vejo que isso não necessariamente se reverbera em práticas que sejam descolonizadoras, que sejam alinhados com projetos antirracistas.