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Serviço de branco:

Mulheres negras e as adversidades no mercado de trabalho

Por Natielly Silva

& Eduardo Silva

Uma confeiteira artesanal, uma assistente administrativa e uma vendedora de loja infantil, o que elas possuem em comum? São três mulheres negras cearenses que desde muito novas já estavam inseridas no mercado de trabalho.  

 

Manuelly Silva, 23, é confeiteira há três anos e trabalha desde os 15. Ela conta que seu primeiro emprego foi em uma pequena confecção de roupas onde trabalhou por três anos escondendo a pouca idade. Manuelly por ser menor não pode ter registro do trabalho na carteira. Ela, que foi mãe aos 18 anos, e por isso largou o primeiro emprego para cuidar da filha, também já trabalhou como diarista em troca de alimentos e materiais para o lar. Em meio às suas faxinas, Manuelly ganhou doces e chocolates que haviam sobrado do aniversário da filha de uma patroa, e começou a testar receitas de bolos e pudins que assistia no Youtube, e assim surgiu seu amor pela confeitaria.

 

Suzana Santos, 25, é assistente administrativa em uma grande empresa do ramo alimentício do Estado, e começou a trabalhar ainda durante o Ensino Médio como bolsista de iniciação científica em um laboratório de Química no Instituto Federal do Ceará (IFCE). A profissional conta que com a separação dos pais e a ida da mãe para a Bahia, cidade natal da família materna, ela com 17  anos na época, morou durante duas semanas de favor na casa de algumas amigas até descobrir uma gravidez e acabar indo morar junto com o pai da criança. Suzana explica que possui um dom de conquistar recrutadores, mas durante os quase dois anos que passou morando com a mãe no estado baiano, depois de separar do pai de seu filho, ela não conseguiu emprego por lá, e decidiu voltar para o Ceará onde trabalhou como vendedora por um curto período antes de ingressar em um estágio na construção civil como técnica em segurança do trabalho. 

 

A vendedora Carla das Chagas, 45, atualmente trabalha em uma loja de roupa infantil no centro da cidade há mais de 10 anos, e aos domingos monta uma barraca de roupas na Feira do Antônio Bezerra. Carla comenta que começou a trabalhar muito cedo, e mesmo com a chegada da maternidade aos 19 anos, nunca abandonou o mercado de trabalho. O filho Matheus, hoje com 26 anos, ficava com a avó para os pais trabalharem. Assim como muitas mulheres brasileiras, a feirante passou a ser a principal provedora do lar com o início da pandemia e a perda do emprego do marido, que trabalhava no setor de eventos. 

 

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) do ano de 2020, mulheres negras compõe 28% da população brasileira, e unidas aos homens negros formam 54,9% da força de trabalho no país mas ainda assim, essas mulheres recebem apenas 44% do salário de um homem branco. Segundo a pesquisadora e professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), Vera Rodrigues, essa realidade se explica pelo racismo estrutural vigente no país, onde mulheres negras acabam enfrentando uma interseccionalidade de preconceitos. 

 

Outra informação relevante é que mesmo sendo metade da força de trabalho no país, ⅔ da população negra são desocupados ou subutilizados. No Brasil, segundo dados do IBGE, no ano passado, haviam 13,9 milhões de brasileiros desempregados, sendo 60% deles mulheres, e 6 em cada 10 eram mulheres negras. Vera Rodrigues explica que é preciso se atentar que muitas mulheres negras sempre trabalharam e continuam trabalhando mesmo no mercado informal. Esse desemprego que os censos mostram em suas pesquisas não indicam em parte que essas mulheres estão desempregadas, muitas delas apenas estão trabalhando em empregos informais, onde são invisibilizadas.

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Altos cargos e o ambiente corporativo

Mesmo que nos últimos anos se perceba um aumento de ações afirmativas no mundo corporativo para a população negra, o caminho para a diminuição do racismo estrutural no mercado de trabalho ainda deve percorrer um grande caminho rumo a mudanças significativas. Segundo a professora da Unilab, essas políticas públicas de inclusão são apenas o primeiro passo para que esses espaços possam começar a ser ocupados por pessoas negras, e principalmente mulheres negras. Ela enfatiza a importância da interseccionalidade no momento da criação de ações por parte das empresas, e que a luta antirracista é um espaço para todos.

 

Durante a pesquisa Potências (in)visivéis: a realidade da mulher negra no mercado de trabalho, resultado da parceria entre a consultoria Indique uma Preta e a empresa de pesquisa Box1824, mesmo as mulheres que conseguem adentrar no mundo corporativo e enfrentar o racismo nesse espaços majoritariamente ocupados por pessoas brancas, apenas 6,6% consegue um cargo de chefia. Os números mostram que funcionários negros estão centralizados em cargos mais baixos ou apenas dentro de algum núcleo de diversidade dessas empresas. Os cargos de alta patente, em algumas ocasiões, são ocupados através de indicação, então sendo a empresa um local dominado por chefes brancos, eles optam pela indicação de outros colegas brancos,como uma espécie de pacto da branquitude, explica professora Vera.

 

Quando se fala em ocupar o espaço corporativo, as mulheres negras enfrentam outro grande obstáculo antes mesmo de entrar nessas empresas, que é a questão da formação e capacitação. Segundo a pesquisa Potências (in)visivéis: a realidade da mulher negra no mercado de trabalho, essa é a primeira barreira de bloqueio da capacidade de reação desse grupo de mulheres. As grandes empresas alegam falta de qualificação para a contratação dessas mulheres, a exigência de um curso de ensino superior. Quando  se observa os números dos censos, apenas uma pequena parcela de mulheres negras possuem ensino superior, entre nossas três personagens Suzana é a única com formação superior, não por acaso, também é a que recebe melhor salário.

 

Mas mostrando um contraponto a essa realidade, a pesquisa do Indique uma Preta  e do Box1824 mostra que das presenças femininas nas universidades, 50,3% são de mulheres negras. E a pesquisa acaba apontando para um mito de que candidatas negras não têm formação necessária.

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Mulheres negras e os obstáculos no mercado

A assistente administrativa Suzana explica que, certa vez, para conseguir ser aprovada em uma vaga de emprego numa indústria de peças precisou omitir vários detalhes de sua vida pessoal. Mesmo sabendo de sua capacidade, profissionalismo e bom currículo, ela não contou sobre ser mãe solo, e não vir de uma família estruturada, e disse saber que se tivesse citado isso durante sua entrevista provavelmente não teria sido contratada. Tempos depois os patrões descobriram e ela só não foi demitida, devido seus bons serviços prestados.

 

Manuelly explica não se ver mais voltando para o mercado de trabalho, pois se encontrou na confeitaria, mas que antes disso passou por muitas situações ruins no período que foi diarista. Ela relata que trabalhava muitas vezes em troca de alimentos, para ter o que comer com suas duas filhas. Em uma ocasião, ela chegou a trabalhar em uma residência onde passou o dia inteiro limpando e nem mesmo lhe foi oferecido água ou comida. Manuelly disse que a mulher lhe pagou com alimentos perecíveis, frutas e verduras e com o cansaço e pressa de chegar em casa não reparou nas sacolas, chegando em casa descobriu que os alimentos estavam vencidos e estragados. Manuelly afirma que esse foi um dos piores episódios da sua vida.

 

Episódios de machismo, sexismo e racismo são frequentes quando mulheres negras param para contar suas experiências no mercado de trabalho. O racismo institucional afeta não apenas as relações de trabalho dessas mulheres como também a autoconfiança e autoestima. Suzana conta que já sofreu assédio no trabalho e chegou a questionar sobre sua qualidade formativa. “Será que eu sou contratada porque eu sou um rosto bonito, um rosto atraente ou é por aquilo que eu tenho pra oferecer como profissional?”, disse ela. Vera relata que a hiper sexualização do corpo de uma mulher negra é provocada com a intenção de desumanizá-la, e fazê-la se questionar sobre si mesma.

Mercado de trabalho e o racismo institucional

A professora e pesquisadora da Unilab explica que não existe uma receita de bolo para se combater o racismo, ou uma ação específica de como agir quando se sofre esse tipo de violência. Vera comenta que nas empresas é importante que exista uma ouvidoria para que esses casos possam ser relatados e resolvidos. O empregado não deve se silenciar em casos de discriminação racial ou assédio, por receio de perder o emprego, porque esse é um mecanismo de silenciamento da branquitude, e que se acontecer uma vez, provavelmente vão existir outras. 

 

Segundo a lei trabalhista é responsabilidade do empregador resolver essa situação dentro da empresa, caso não seja resolvido, o empregado pode ingressar com uma ação perante a justiça contra o empregador por atos discriminatórios por ter causado prejuízos morais à vítima.

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