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Lares que construimos

Lares chefiados por mulheres é o formato familiar que mais cresce no Brasil

Por Natielly Silva

& Eduardo Silva

Aos 17 anos Sandra Ferreira saiu da casa da mãe para viver com o ex-companheiro, pai de seus três filhos mais velhos. Ela abandonou a escola e foi proibida pelo marido de voltar a estudar. Naquela época Sandra era responsável por cuidar da casa e dos filhos. Ao longo dos anos a relação foi se deteriorando, mas foi por causa de uma briga sobre a limpeza do chão em 2001 que ela deixou o marido.

 

Depois da separação, o ex-companheiro parou de contribuir financeiramente e emocionalmente, Sandra assumiu de forma exclusiva o papel de mãe e pai, “Eu disse ‘não tem nada não, eu pari foi só eu vou criar é só’. E tá aí tudo criado. Mas hoje eu sinto que ele se arrepende disso (não ter contribuído) porque hoje ele não pode cobrar amor, atenção, respeito” ela relata. 

 

Foi apenas quando se tornou chefe de família que a vida de Sandra começou a melhorar. Depois da separação ela voltou a trabalhar e estudar, finalizou o ensino médio e ingressou no ensino superior, mas ainda não concluiu o curso. Hoje, aos 43 anos, Sandra trabalha como artesã e educadora. Ela vive com os filhos Edilberto, Ana Júlia e o seu netinho Ravi na casa que ela construiu por conta própria, literalmente:

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FAMILIA SANDRA FERREIRA.png

EDIÇÃO
Eduardo Silva

TEMPO
2,5 Min

COLABORAÇÃO
Sandra Ferreira
& família

PRODUÇÃO
Eduardo Silva & Natielly Silva

Nas últimas décadas o número de lares chefiados por mulheres no país teve um crescimento significativo, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 45% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres em 2018, grande parte dessas famílias são chefiadas por mulheres negras como Sandra. O nordeste é a região do país que concentra o maior número de famílias com esse arranjo familiar, em 2015 cerca de 38% das famílias nordestinas possuíam uma mulher negra à frente do comando do lar, segundo o censo do IBGE. 

 

As razões alegadas para essas mudanças segundo pesquisas é o crescente aumento de mulheres no mercado de trabalho. De acordo com entrevista cedida pela pesquisadora Ana Tereza Pires da consultoria IDados ao jornal Estado de Minas, a chefia feminina nos domicílios passou a se mostrar expressiva a partir de 2012 quando a crise econômica no país trouxe a perda de emprego e redução salarial principalmente masculina fazendo com que mais mulheres se tornassem as responsáveis por prover a renda de casa. Só entre 2014 e 2019, quase 10 milhões de mulheres assumiram o posto de gestora da casa, enquanto 2,8 milhões de homens perderam essa posição no mesmo período.

Uma triste realidade exposta pelos censos brasileiros mostrou que em 2019 pelo menos 63% dos lares no país que eram chefiados por mulheres negras estavam abaixo da linha de pobreza. É impossível não ver esses números e não associar e discutir sobre racismo estrutural. Vislumbrando esses dados percebemos como o passado colonial ainda se encontra presente na história contemporânea brasileira. As mulheres negras historicamente se apresentam como o grupo mais prejudicado no país ao longo da história nacional.  

 

Muitas dessas pesquisas e censos tentam explicar o aumento de lares chefiados por mulheres como sendo causado pelo ingresso feminino no mercado de trabalho. O que essas pesquisas ignoram é que historicamente, mulheres negras sempre estiveram inseridas no mercado brasileiro. Primeiramente como mercadoria, depois na lógica do trabalho escravo, depois como empregadas domésticas em situações analogas a escravidão, mais tarde como operárias ou educadoras e hoje em diversas áreas formais e informais do mercado, até mesmo no empreendedorismo. 

 

Enquanto mulheres brancas lutavam para entrar no mercado de trabalho, mulheres negras lutavam por direitos trabalhistas. Então o argumento do ingresso no mercado não explica por completo o grande número de mulheres negras na posição de chefe do lar. A realidade é que muitas dessas mulheres se tornaram chefes do lar por se encontrarem sozinhas e desamparadas. Sandra conta que quando informou ao ex-companheiro que iria entrar na justiça para pedir o pagamento da pensão alimentícia ele se demitiu do emprego.

A solidão afeta a mulhere negra antes dela entrar no matrimônio. A autora Ana Cláudia Pacheco aponta em seu livro Mulher Negra: Afetividade e Solidão que mulheres negras se casam mais tarde e com menor intensidade que as brancas, além disso, mulheres pretas e pardas compõem a maioria dos grupos das solteiras, viúvas e separadas. Nota-se também que a maioria das uniões inter-raciais são compostas por homens negros e mulheres brancas. 

 

Ou seja, mulheres negras são preteridas ao matrimônio - de acordo com o Censo de 2010 realizado pelo IBGE, 52,25% das mulheres negras não se encontravam em relações afetivas - e mesmo aquelas que se encontram em uniões estáveis ainda podem acabar sozinhas. Primeiramente pela viuvez, aqui é importante destacar o extermínio da população negra que afeta principalmente os companheiros e filhos dessas mulheres, e segundo pela separação, o que pode acontecer por múltiplas razões: decisão mútua, abandono do lar ou violência doméstica.

Ouça o podcast "Outros Caminhos" com a diarista Jucelania da Silva, que se tornou chefe de família após o assassinato do companheiro.

Quem são os chefes de família?

Conceito evoluiu ao longo do tempo:

Conceito de família segundo o Código Civil de 2002:

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Homem + mulher + prole
OU
Um dos progenitores + prole

Conceito de chefe de família:

Recenseamento Geral do Império de 1872, primeiro censo do Brasil, exigia a identificação do chefe de família: pessoa que exercia autoridade sobre a família e que constituía a principal fonte de renda.

Atualmente o IBGE utiliza o termo responsável no lugar de chefe, mas o sentido é o mesmo. Principal provedor e administrador do lar.

Exercício do Poder Familiar:

Código Civil de 1916:

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O antigo código estabelecia o pátrio poder, ou seja, o chefe da família era o pai, com "auxílio da mãe", mas prevalecia a vontade dele.

Código Civil de 2002:

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Garante igualdade de poderes entre marido e esposa sobre os bens familiares e prole. Na ausência de um dos progenitores o outro tem autonomia total.

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Suzana Santos e o seu filho.

Novos Paradigmas

Quando nos referimos a mulheres chefes de família, geralmente associamos a famílias monoparentais, onde temos uma mulher e seus filhos, mas atualmente com os avanços de estudos a respeito dessa estrutura familiar, foi observado que existem formações múltiplas nessas famílias. E um formato  que vem se mostrando expressivo nos últimos tempos são de mulheres que possuem cônjuge, mas ainda assim são elas que estão à frente do controle financeiro familiar. Segundo pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 43% das mulheres que são chefes de domicílio hoje no Brasil vivem em casal, sendo que 30% dessas famílias têm filhos e apenas outros 13% não possuem.

 

Uma dessas mulheres é a assistente administrativa Suzana Santos, 25, moradora da região metropolitana de Fortaleza, ela mora com o filho de 6 anos e o companheiro Will Matos, 28. O cônjuge de Suzana é soldador e ela por ganhar bem mais que o parceiro assume a maior parte das despesas do lar, sendo inclusive ela a responsável por comprar o imovel que eles residem atualmente. “Eu não acho justo passar meio a meio, porque eu sei que ele não recebe o mesmo que eu, mas a gente consegue fazer isso de uma forma tranquila, porque eu tenho a consciência que ele recebe menos”, esclarece Suzana.

 

Também conhecemos na ocasião a servidora pública Andréa Araújo, 42, mãe de dois filhos, ela é desde 2013 a principal provedora da família depois que passou a ter um salário maior que o companheiro. O marido de Andréa é vendedor autônomo e com a pandemia e alguns problemas de saúde não conseguiu se manter como principal provedor, atualmente ele está de auxílio doença pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A servidora explica que apesar de ganhar mais o salário dela e do marido é da família. “O nosso dinheiro é único, a responsabilidade de tudo é nossa, trabalhamos em conjunto. Não tem essa separação de despesas”, comenta Andréa.

 

Apesar de chefes de família, ambas estão em home office e elas alegam que são as que mais exercem os afazeres domésticos até mesmo antes da pandemia. Na casa de Suzana durante a semana o marido fica responsável por jogar o lixo e encher as garrafas e alguns dias da semana fica incubido do jantar mas durante os fins de semana o casal faz uma faxina conjunta em casa. Já na residência de Andréa ela explica que as tarefas do lar são dever de todos da casa, mas que ainda assim é ela que faz a maior parte de tudo.

Na casa de Sandra os filhos: Isabel, Mateus, Ana Júlia e Edilberto, tomaram a iniciativa de ajudar com serviço doméstico criando por conta própria uma tabela de deveres que cada um deveria cumprir, “Eles tinham um sistema parecido na escola e aí trouxeram aqui pra casa” ela explica. Na época em que eles criaram a tabela Sandra estava sempre exausta pois trabalhava em dois locais e também cursava o ensino médio.

Uma rotina multitarefa

Nos dois últimos anos com a pandemia de Covid-19 que se instaurou, muitas mulheres, e principalmente mulheres negras, passaram a desempenhar ainda mais um acúmulo de tarefas. O home office, as atividades domésticas e o cuidado com os filhos no ensino remoto, tudo isso passou a ter um peso maior nas rotinas já corridas dessas trabalhadoras. Em 2019 dados do IBGE relatavam que as mulheres naquela época já trabalhavam em média 18,5 horas por semana, em comparação aos homens que tinham uma rotina de 10,3 horas. No momento atual, a carga de atividades de casa deve ser bem maior.

 

Andréa que é servidora e está em casa desde o nascimento do filho mais novo em março de 2020, quando terminou sua licença maternidade e ela precisou regressar em seu trabalho no formato home office viu uma necessidade ainda maior de mostrar seu “jogo de cintura”. “Eu consigo fazer cinco ou seis coisas ao mesmo tempo. Tô trabalhando, ligando o computador, esperando uma informação, já tô colocando uma roupa na máquina, já com uma panela de feijão no fogo”, exemplifica Araújo.

 

Suzana conta que evita realizar afazeres do lar durante a semana pois fica muito cansada e no dia seguinte não consegue render tanto no seu dia. O parceiro por trabalhar o dia todo também não realiza essas atividades. Ela fala que quando o companheiro sai para o trabalho e leva o filho para a escola, ela começa sua rotina no home office e pouco antes do filho chegar para almoçar ela já sai do computador e vai para a cozinha preparar o almoço dos dois. A assistente administrativa conta que é durante o sábado que ela e o marido fazem a faxina pesada de casa.

 

As chefes de família manifestam em suas falas que a rotina com a pandemia tornou mais cansativa seu cotidiano, mesmo com o auxílio dos parceiros são elas que tomam a frente das atividades domésticas e sentem que precisam ser fortes e dar conta de tudo principalmente por causa dos filhos, é o que relata Andréa. “É muito cansativo sim,mas quando a gente se torna mãe parece que ganha uma força para lutar pelos filhos. Em muitos momentos eu chorei e quis me abalar, mas parava pra pensar e olhava para eles e me fazia forte, porque é isso que eles esperam de mim”, conta a servidora.

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Andréa Araújo e seu filho mais velho.

Referências familiares

Quando nos atentamos a conhecer as referências familiares anteriores dessas mulheres negras ditas como fortes e multifacetas percebemos o quanto suas mães ou avós têm participação nesse processo de construção social. Na família de Andréa seus pais se separaram muito cedo e sua mãe criou sozinha ela e seu irmão com algumas ajudas de tios, já que sua família era unida e todo mundo buscava se apoiar. Ela conta que sua mãe nunca recebeu ajuda financeira do ex-marido para auxiliar na criação dos filhos, e precisou “arregaçar as mangas” e resolver tudo sozinha. 

 

A servidora pública comenta que a ausência do pai na infância e adolescência foi muito sentida e frustrante para ela, principalmente porque Andréa fez parte de grupos de dança e apenas uma vez o pai a viu se apresentar. A pesquisadora Taiane Alves que está realizando sua pesquisa de mestrado sobre Mães Solos Negras na cidade de Fortaleza fala como a ausência paterna vai além do campo financeiro, e que filhas de mães solos sentem essa lacuna na sua vida desde criança. “A ausência paterna vai além dele ser o provedor, deveria existir ali uma relação de cuidado para com sua prole”, explica Alves.

Mesmo com esse vazio paterno, a servidora conta que a família materna era bem unida e acolhedora, e que o grande ensinamento herdado por eles foi a alegria de viver, a esperança e a garra, e ela enfatiza, “minha mãe assim como minha família foram muito esforçados, tinham muito força de vontade e sempre correram atrás do que acreditavam, e eu tento hoje passar isso para os meus filhos”, finaliza Andréa.

Como mãe, Sandra primou em ensinar suas filhas, que hoje já são mães, a serem independentes tanto na vida pessoal quanto na criação dos filhos, “Eu penso que quando um casal se separa ainda há um compromisso com o filho, mas tem pai por aí que se esquece disso, a gente não pode se humilhar pra esses caras não. Tem que ter pulso”, ela aconselha. Como candomblecista, Sandra também se preocupou em ensinar aos filhos o respeito às diversidades e a ancestralidade.

 

Assista o documentário Ancestralidade com Sandra e outras mulheres de fé de matriz africana.

A maternidade solo

A vida de Suzana atualmente é tranquila, e ela ocupa um emprego com bom salário, mas nem sempre foi assim. Segundo ela, até chegar no patamar social atual foram alguns anos passando por muitas dificuldades junto com o filho. Quando a criança fez um ano, Suzana se separou do companheiro e nesse período passou por vários empregos, precisou conciliar ensino técnico, ensino superior, maternidade solo e locais de trabalhos com muitas situações desconfortáveis, algumas inclusive onde ela chegou a sofrer assédio. 

 

A chefe de família relata que chegou a morar durante dois anos em Salvador, cidade da família materna, logo que se separou, e quando voltou para o Ceará chegou a dormir no chão na casa que ela conseguiu alugar. Suzana lembra que todos seus empregos eram muito longe de casa e então tinha que sair cedo e deixava o filho na creche às 5h da manhã e só conseguia buscá-lo às 18h da noite. Ela ainda menciona que o dinheiro da creche era pago parte com a pensão de 200 reais que o filho ganhava e outra parte era do bolsa família que ela recebia na época.

 

Em algumas ocasiões ela chegou a trabalhar em empregos temporários ganhando entre 10 a 15 reais por dia que, de acordo com ela, só dava para comprar a comida para dentro de casa. Mas Suzana sempre prometeu para o filho que eles não seriam estatística e que ela se esforçaria para dar uma vida melhor para os dois. Recentemente ela se formou na faculdade de Recursos Humanos.

AYABÁS: Mulheres Negras Chefes de Família

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Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC)

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