
São elas que fazem acontecer
Histórias de três afroempreendedoras de Fortaleza
Por Eduardo Silva
& Natielly Silva
Em 2020 o Brasil atingiu a maior taxa histórica de empreendedorismo inicial (23,4%) - negócios que funcionam há pelo menos três meses e até 3.5 anos. O dado faz parte da pesquisa sobre empreendedorismo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) realizada pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) desde 2002.
Infelizmente, essa não é uma boa notícia. Com mais de 14 milhões de brasileiros em busca de uma vaga de emprego, apostar na autonomia e abrir um negócio se tornou a única opção para quem não consegue adentrar o mercado de trabalho. Segundo o Sebrae esses são os empreendedores por necessidade, que em 2020 compõem mais de 82% dos empreendedores brasileiros.
Em contrapartida, aqueles que se lançam ao empreendedorismo pelo desejo de ser autônomo ou pela familiaridade com a atividade são os empreendedores por oportunidade. No geral, empreendedores por oportunidade possuem maior renda familiar, maior qualificação e melhor plano de negócios que empreendedores por necessidade.
A pesquisa GEM de 2018 apontou a disparidade entre empreendedores inciais negros e brancos, 71,5% dos empreendedores inciais brancos empreediam por oportunidade enquanto que entre os empreendedores negros apenas 55,56% afirmavam a mesma razão.
No ano seguinte, 2019, a PretaHub, em parceria com a JP Morgan e o Plano DCE, realizou o estudo Empreendedorismo Negro no Brasil, dividindo empreendedores negros em três categorias: empreendedores por necessidade, empreendedores por vocação (oportunidade) e o empreenderes engajados.
Essa terceira modalidade é caracterizada pelo desejo de empreender associado à vontade de exercer atividades autoafirmativas voltadas à população negra. O grupo se destaca por assumir a identidade de afroempreendedor e por trabalhar contra descriminação racial e o desemprego da população negra. Entre os engajados, 29% trabalham em redes de parceria com foco em outras pessoas negras, 31% acreditam que a maior qualidade do negócio é a articulação da cultura afro com a produção e 36% trabalham trazendo inovações ao mercado brasileiro.
Os engajados possuem a maior taxa de formalidade entre as três categorias, 64% trabalham dentro dos conformes da lei. Infelizmente isso não faz com que a categoria escape do racismo estrutural. No geral, empreendedores engajados têm menos oportunidade de receber apoio por crédito do que outras categorias de empreendedores. Cerca de 39% tem crédito negado sem explicação e 8% já tiveram crédito negado por serem negros.
O estudo da PretaHub também serve como um retrato do empreendedorismo negro. Dos negros que estão empreendendo, hoje, mais da metade são mulheres (52%), a maioria tem menos de 40 anos (68,6%), habitam principalmente o sudeste (40%) ou o nordeste (31%) do Brasil e sua renda mensal é de até R$5000,00 por mês (37%).
Foi pensando neste retrato que o Especial Ayabás resolveu registrar o dia a dia de três afroempreendedoras da cidade de Fortaleza: Angélica Freire, 32 anos, moradora da Granja Lisboa, criadora da marca InaPreta de toucas cetim; Thaís Silva, 25 anos, moradora do Benfica, criadora do salão de beleza Espaço Thaís Silva especializado em cabelos com textura; e Helaine Cruz, 32 anos, moradora do Meireles, criadora da lanchonete Negah Doces & Salgados.
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Afroempreendedora Angélica Freire e seu filho Airel.

Angélica Freire
Antes mesmo do sol nascer, Angélica já está de pé trabalhando. De segunda a sábado ela acorda às 5 horas para preparar os pedidos que chegam pelo site ou pelo Telegram da InaPreta. Angélica separa as peças encomendadas, inspeciona o acabamento, remove fios longos, prega botões e as engoma com o ferro de passar para embrulhar os produtos na embalagem da marca.
Enquanto ela realiza as atividades do negócio, Angélica precisa preparar o café da manhã e ajudar o filho Ariel, 8 anos, a se arrumar para escola. Ariel tem orgulho da mãe e já tomou interesse pelo negócio da família, ele ajuda a preparar as encomendas e adora divulgar os produtos entre os amigos e familiares. Vicente (29), companheiro de Angélica, trabalha como motorista, mas também auxilia em casa, na divisão do trabalho doméstico, no transporte de Ariel e das mercadorias, além de administrar a InaDurags – empreendimento derivado da InaPreta. Os dois dividem as contas de casa, mas é Angélica quem arca com as despesas de Ariel – o pai biológico também contribui igualmente com as despesas.
Foi com o início das restrições implantadas durante a pandemia de coronavírus que Angélica passou a dedicar maior tempo ao empreendimento, mas a ideia de produzir toucas de cetim surgiu antes, pela necessidade de cuidar dos cachos da família e facilitar a arrumação dos cabelos de manhã. Os amigos gostaram da ideia e Angélica passou a investir nela, pois já tinha o interesse em fazer algo de cara negra para o povo negro.
O foco da marca InaPreta é no descanso da mulher e do homem preto, no autocuidado, e na preservação do cabelo natural. A touca de cetim trabalha como agente antifrizz diminuindo o atrito do cabelo com outras superfícies. As durags são acessórios de estilo, mas também tem a função de prender os cabelos no penteado de “waves” (ondas). Os pentes e escovas são apropriados para cabelos com textura. Além das toucas, durags, pentes e escovas Angélica também vende robes e fronhas de travesseiro de cetim.

Afroempreendedora Thais Silva, e sua equipe.

Thaís Silva
Thaís aprendeu a manusear cabelos com textura aos 15 anos, reproduzindo em si mesma os tutoriais que assistia no YouTube. Os cortes e penteados chamaram atenção da população de Aracati CE, cidade natal de Thaís. Aos 18 anos ela abriu seu primeiro salão, um dos únicos que ofereciam serviços especializados em cabelos afro na cidade.
Por volta de 2016, Thaís custeou a mudança da família para Fortaleza com a venda dos equipamentos do salão. Aqui na capital ela estabeleceu uma base de clientes atendendo em domicílio e trabalhando no salão da trancista Jaqueline Lima. Em outubro de 2019 Thaís abriu seu segundo salão de beleza: o Espaço Thaís Silva, localizado no bairro Benfica.
Hoje, com os lucros do salão, Thaís emprega duas funcionárias e sua irmã Thainá, 22 anos. Thaís e Thainá moram no local de trabalho, num espaço que fica reservado do salão. Além de arcar com as contas do empreendimento, Thaís também é a principal provedora da família. Ela quem custeia a maior parte das despesas domésticas na casa que divide com a irmã e também ajuda os pais.
A rede social Instagram é uma das principais ferramentas de Thaís para alcançar novas pessoas e expandir a clientela. É por meio do aplicativo que ela divulga os resultados do trabalho, segundo Thaís são as fotos do “antes e depois” que mais chamam atenção dos seguidores.
Thaís também aposta no enaltecimento da estética afro por meio da decoração para cativar os clientes, criando um espaço nitidamente preto e acolhedor, e também por meio dos serviços prestados, Thaís não faz procedimentos de alisamento como o relaxamento ou outras técnicas que alteram a textura natural do fio.

Afroempreendedora Helaine Cruz trabalhando na cozinha.

Helaine Cruz
Helaine Cruz herdou da mãe a vocação para o empreendedorismo. Desde os 14 anos ela já auxiliava no bar que ficava na frente de casa preparando bolos, salgados e pratinhos. Já mais velha, ela trabalhou na cozinha de navios e de restaurantes famosos em Fortaleza. A iniciativa de empreender veio depois de uma demissão. Helaine começou a vender salada de frutas e salgados na praia e mais tarde passou a ocupar o espaço onde ficava o bar da mãe dela.
O nome e a estética da Negah Doces & Salgados vem dos aprendizados sobre negritude e das vivências de Helaine. Negah é um apelido carinhoso pelo qual ela é conhecida e a logo do negócio, uma mulher preta de turbante, é inspirada nela mesma. A escolha estética parte de um combate ao apagamento das histórias negras. A amiga Angélica Freire, é uma das referências de Helaine nesse quesito.
No início da pandemia, Helaine achou que teria que fechar o negócio, mas optou por trabalhar com delivery de encomendas e por meio do aplicativo IFood. Foi nessa época que a Negah Doces & Salgados teve grande lucro. Hoje o ritmo diminui, atualmente Helaine consegue manter a lanchonete e pagar as contas com a venda dos doces e salgados, porém não tem o mesmo retorno.
O controle dos números, a disciplina de trabalho e a preocupação em empreender da forma correta são os principais motores do negócio de Helaine. Todas as despesas, lucros, usos de insumos, vendas, cortesias, entre outros, são registrados em uma planilha no computador. O controle da saída e entrada de dinheiro ajuda a melhor visualizar o futuro, é por meio das planilhas que Helaine decide se vai, ou não, estender o horário de trabalho ou quais promoções ela pode fazer naquele mês, por exemplo. Ela também buscou consultoria de uma especialista do ramo de alimentação para corrigir alguns erros que havia cometido no início do empreendimento.
Atualmente Helaine busca expandir seus conhecimentos culinários. Prestes a finalizar o curso de gastronomia e receber seu diploma técnico, ela também investe nas questões identitárias estudando cozinha periférica com o professor Edson Leite.
Angélica, Thaís e Helaine têm pretensões de continuar a empreender e expandir o negócio. Angélica declarou o desejo de separar o local de trabalho da residência e alcançar novos mercados fora do estado. Thaís atualmente vem investindo na capacitação das funcionárias. Por enquanto, os planos de Helaine são de continuar a empreender, aprimorar seus conhecimentos e manter seu negócio aberto.
















